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O CREPÚSCULO DA TEORIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de mar.
  • 3 min de leitura

O CREPÚSCULO DA TEORIA

Da Janela do Centro à Urgência da Práxis

            Observo, da minha janela no Centro Histórico de Porto Alegre, o sol se pondo atrás do Guaíba, tingindo de um laranja melancólico a imensa chaminé e o prédio centenário da Usina do Gasômetro.

            Meus olhos, cansados por mais de quarenta anos de uma convivência quase eremítica com o papel e a tinta, desviam-se das lombadas da minha biblioteca para a crueza do asfalto lá embaixo.

            Percorri os labirintos da metafísica, perdi-me nas abstrações da fenomenologia e naufraguei, voluntariamente, nas águas profundas do realismo. Durante décadas, a "coruja de Minerva", como diria Hegel, levantou voo no meu entardecer, buscando entender o que já havia acontecido.

            No entanto, o silêncio do meu apartamento, outrora um templo de erudição, hoje me soa como uma omissão. Entre o pó dos tomos de Kant e a fumaça de um café esquecido, uma sentença específica, gravada a fogo na história do pensamento, emergiu do fundo da minha memória com a força de um veredito: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo, agora temos que transformá-lo.”

            Embora frequentemente associada ao ímpeto do Manifesto, essa 11ª tese sobre Feuerbach condensa o grito de Karl Marx contra a esterilidade do pensamento que não se traduz em carne, pão e liberdade.

            A análise dessa frase exige que desçamos do pedestal da contemplação.

            Marx não desprezava a filosofia; ele exigia sua superação através da concretude.

            Interpretar o mundo é um exercício de taxonomia: classificamos a dor, nomeamos a injustiça e sistematizamos a opressão. Mas a interpretação, por si só, é uma redoma de vidro. Ela nos permite ver a tempestade sem nos molharmos. A transformação, por outro lado, é a práxis, a união indissociável entre a teoria e a ação transformadora.

            Essa necessidade de transbordar o pensamento para a realidade não foi um clamor isolado. Outros pensadores, sob diferentes matizes, avalizaram essa urgência:

            Jean-Paul Sartre, com seu existencialismo engajado, argumentava que o homem é o que ele faz. O pensamento que não se compromete com a situação histórica é uma "má-fé" intelectual.

            Antonio Gramsci, ao formular o conceito de "intelectual orgânico", reforçou que o conhecimento deve servir como ferramenta de hegemonia e mudança social, não como adorno de gabinete.

            Paulo Freire, transformou a pedagogia em práxis, afirmando que "a leitura do mundo precede a leitura da palavra", mas que ambas só fazem sentido se visarem a libertação do sujeito.

            A transformação preconizada por Marx deveria ocorrer através da consciência de classe e da apropriação dos meios de produção. No entanto, o que observo da minha janela gaúcha, e através das janelas digitais do nosso tempo, é um fenômeno perturbador. A humanidade parece ter substituído a transformação da realidade pela manipulação da percepção.

            Vivemos o apogeu do obscurantismo tecnológico. Onde deveria haver esclarecimento, há um amálgama tóxico de crenças místicas e ideologias rasteiras.

            O povo, mantido deliberadamente inculto sob uma enxurrada de desinformação algorítmica, não mais interpreta o mundo, ele o consome como simulacro. A manipulação transformou-se em ciência: usa-se o ressentimento legítimo das massas para alimentar moinhos que só moem para a manutenção do status quo. A "transformação" atual é um espasmo de ódio nas redes, uma mudança de superfície que mantém as estruturas de poder intactas, enquanto a verdade é sacrificada no altar da conveniência política.

            É amargo constatar que, após milênios de filosofia, o mundo nunca foi tão interpretado e, paradoxalmente, tão pouco compreendido. Tornamo-nos especialistas em hermenêuticas da miséria, capazes de escrever teses brilhantes sobre a fome enquanto o vizinho de porta definha. A erudição, sem o passo em direção ao outro, torna-se uma forma refinada de covardia.

            A frase de Marx continua a ser o grande incômodo da razão. Ela nos lembra que o pensamento que não sangra, que não calça os sapatos e que não se arrisca nas ruas do Centro Histórico é apenas um jogo de abalar-luzes.

            Se o mundo continua a ser uma engrenagem que tritura vidas, a culpa não é apenas de quem gira a manivela, mas de quem, sabendo como ela funciona, limita-se a descrever o som do metal contra os ossos.

            A interpretação saturou-se.

            O diagnóstico está pronto há séculos.

            O que falta é a coragem de ser a cura.

            Afinal, de que serve entender o abismo, se não for para construir a ponte?

 
 
 

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