O CAOS E A ESTRELA APAGADA
- Carlos A. Buckmann
- 3 de mar.
- 5 min de leitura

O CAOS E A ESTRELA APAGADA
Manuseio, com a dificuldade própria dos meus oitenta anos, um exemplar já bastante amarelado de Assim Falou Zaratustra.
Não a edição crítica que hoje ornamenta estantes de jovens que confundem Nietzsche com autoajuda, mas aquela velha tradução para o português dos anos noventa, comprada para repor outra que ficou pelos caminhos, numa de minhas perenes garimpagens em livrarias da cidade, quando ainda tinha olhos para ler até tarde sem o auxílio destas lentes.
Releio, pela enésima vez, o prólogo: Zaratustra desce da montanha após dez anos de solidão, dez anos de caos interior fecundo, e dirige-se ao povo na feira. É ali, naquele momento inaugural da obra, que encontro a sentença que tantas vezes me serviu de bússola e de angústia: “É necessário ter o caos dentro de si para gerar uma estrela.”
Mas que caos é este, eu me pergunto agora, com a voz e a mão que tremem sobre o papel? Não o caos moderna, esse barulho ensurdecedor de informações, esse tumulto vazio das redes sociais onde todos gritam e ninguém diz nada. O caos de que fala o filósofo alemão é condição ontológica, é a matéria-prima da criação, é a ausência de uma ordem pré-estabelecida que obriga o homem a tornar-se o seu próprio legislador. É o reconhecimento dionisíaco de que o mundo não possui finalidade nem propósito transcendente.
Quando Zaratustra anuncia a morte de Deus, não celebra um assassinato, diagnostica uma orfandade. E é precisamente nesse desamparo, nesse vazio metafísico, que o criador deve encontrar forças para gerar a sua estrela, esse lampejo de sentido num universo que, por si só, nenhum sentido oferece.
Aos trinta anos, li esta passagem com o furor de quem descobre um tesouro escondido. Aos oitenta, leio-a com a melancolia de quem contempla as ruínas de uma civilização que, tendo perdido Deus e os deuses, recusou-se a pagar o preço dessa perda.
Porque o que vejo ao meu redor, neste primeiro quarto de século que mais parece um estertor, não são homens e mulheres a gerar estrelas a partir do seu caos interior. Vejo, isso sim, uma humanidade que foge do caos como da peste, que se agarra desesperadamente a qualquer ordem, por mais estúpida que seja, que prefere a servidão tranquila à liberdade angustiante de ter que criar os próprios valores.
Lembro-me de Sartre, esse herdeiro incómodo de Nietzsche, quando escreveu que “o homem está condenado a ser livre”. Condenado porque não se escolheu, porque se vê lançado num mundo sem desculpas, sem justificações prévias. A angústia de que fala o francês em “O Ser e o Nada” é precisamente essa vertigem diante da liberdade radical, a consciência de que “nosso futuro depende de decisões que só nós podemos tomar”.
Ora, o que a nossa época fez foi inventar mil maneiras de anestesiar essa angústia. Criou entretenimento em doses industriais, consumo como terapia, opiniões prontas para quem não quer pensar, e uma moral de rebanho que, sob a bandeira hipócrita da inclusão, nivela tudo por baixo, exatamente o igualitarismo incondicionado que Zaratustra tanto execrava.
Francis Bacon, esse outro artista do caos que Gilles Deleuze tão bem interpretou, compreendeu como poucos o sofrimento do homem moderno: “sozinho em seu quarto”, imerso num mundo sem sentido, reduzido à condição de vianda, de carne talhada exposta no açougue da existência. As suas figuras disformes, esses corpos sem órgãos atravessados por forças invisíveis, são o retrato mais fiel do que Nietzsche diagnosticou: o homem que já não pode apoiar-se em Deus, na Razão, na História, em nenhum daqueles pilares metafísicos que outrora lhe garantiam um lugar no cosmos. Resta-lhe a solidão. Resta-lhe o caos. Resta-lhe, se tiver coragem, a possibilidade de criar.
Mas a minha geração e, mais ainda, as que vieram depois, parece ter escolhido o caminho inverso. Onde deveria haver caos criador, instaurou-se o caos destrutivo do niilismo passivo, esse que não afirma, que não cria, que apenas consome e definha.
A ciência, que poderia ensinar-nos a humildade perante a complexidade do real, como fez Edward Lorenz ao descobrir que o bater de asas de uma borboleta pode desencadear um tornado do outro lado do mundo, foi transformada em novo dogma, em substituto barato para a transcendência perdida.
A política, que deveria ser a arte de construir futuros, degenerou em gestão do presente, em administração do mesmíssimo.
A arte, que poderia ser esse “momento estético de revelação do caos”, tornou-se decorativa, inofensiva, domesticada.
E as estrelas? Onde estão as estrelas que deveriam nascer deste parto doloroso?
Não as vejo.
Vejo, isso sim, uma humanidade que, tendo perdido a capacidade de gerar luz própria, contenta-se em refletir o brilho pálido dos ecrãs. Uma humanidade que trocou a solidão criadora, essa solidão ambígua que tanto pode ser fonte de niilismo como de afirmação, pela companhia virtual dos milhões que jamais estarão sós, mas também jamais serão eles mesmos. Uma humanidade que, diante do abismo, prefere fechar os olhos e sonhar que o abismo não existe.
Nietzsche acreditava que o niilismo era uma etapa necessária, uma espécie de noite escura da alma coletiva, após a qual poderia despontar uma nova aurora. O filósofo Adilson Feiler, num estudo recente, pergunta-se “em que medida esta aurora do porvir é capaz de trazer otimismo diante do turbilhão niilista?”. É a pergunta que me assombra nestes anos crepusculares. E a resposta que os meus olhos cansados encontram no mundo não me traz consolo algum.
Porque o que testemunho não é o prenúncio de uma estrela, mas o espetáculo macabro de uma humanidade que, tendo tido o caos dentro de si, e que caos maior do que os século XX e XXI, com as suas guerras, os seus campos, as suas bombas atómicas, recusou o parto. Engoliu as dores. Abortou a criação. E agora aguarda, narcotizada e sorridente, que alguém lhe diga o que fazer, o que pensar, o que desejar.
O problema, meus caros, não é que Deus tenha morrido. O problema é que, depois da sua morte, em vez de nos tornarmos deuses, como anunciava Zaratustra, preferimos tornar-nos espectadores do nosso próprio vazio. E, como todos os espectadores, aplaudimos, consumimos, e vamos para casa dormir o sono dos justos, que é também o sono dos medíocres, dos que jamais ousaram olhar para dentro e enfrentar o caos que os habita.
As estrelas, essas, apagaram-se uma a uma. Não porque lhes faltasse combustível, mas porque faltaram olhos que as vissem. E, sem olhos que as contemplem, de que serve uma estrela?
De nada.
Absolutamente de nada.




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