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O CAMINHO ÚNICO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

O CAMINHO ÚNICO

            Madrugada.

            O silêncio tem o peso de uma pedra antiga. Abro os fragmentos de Parmênides, e os versos vêm até mim como éguas que avançam “pelas lonjuras do coração”. É assim que ele descreve a viagem: montado na palavra que floresce à beira da estrada, atravessando “as moradas dos homens” por onde viaja “aquela que sabe ver”.

            A frase ecoa em mim. A que sabe ver. Não a que acumula, não a que calcula, não a que publica. A que vê.

            E então ele diz o que viu: “Um caminho só resta para dizer: que é.” Apenas um. O outro, o caminho do não-ser, ele descarta como impraticável, porque o não-ser não pode ser conhecido nem dito.

            O ser, então, se revela: “ingênito e imperecível, completo, único, imóvel e sem fim.” É uma esfera perfeita, homogênea, sem partes. Nada lhe falta, nada o ameaça.

            Li e reli. Há algo de vertiginoso nessa imobilidade. Algo que nos fere, nós que vivemos na correria dos dias, na liquidez de tudo, na ansiedade da mudança.

            “Pois o que é, é agora e será sempre, um todo único e contínuo.”

            Fecho os olhos. Tento imaginar essa totalidade imóvel.

            Mas minha mente insiste em fragmentar, em opor, em contradizer. Sou, confesso, um desses mortais que Parmênides descreve com severidade: “vagando, sem rumo, têm duas cabeças; pois a ignorância os força a vagar por caminhos opostos, dizendo que o ser e o não-ser são um mesmo e outro.”

            Duas cabeças. Uma que afirma, outra que nega; uma que busca permanência, outra que só aceita o fluxo.

            E o filósofo de Eleia nos acusa de viver nessa contradição, incapazes de escolher o único caminho que leva à verdade.

            Mas será que ele tinha razão? Ou será que essa unidade perfeita, essa esfera sem fendas, é apenas o sonho de uma razão que teme a multiplicidade?

            Procuro, entre os contemporâneos, quem dialogue com ele, ainda que em paradoxo.

            Heidegger, por exemplo, leu Parmênides como quem escuta a aurora do pensamento. Para ele, o “que é” não designa uma coisa, mas o próprio acontecimento do ser. O ser não é um ente supremo; é o que se dá no pensar, o que ilumina para que os entes apareçam. Nesse sentido, Heidegger resgata Parmênides do esquecimento: não era um teórico de uma substância parada, mas o pensador que ouviu que o ser se dá.

            Já Heráclito, seu contemporâneo e antagonista, seria a outra cabeça que Parmênides condena. O fluxo, o rio, o conflito como pai de todas as coisas. E, no entanto, os dois pensavam juntos, ainda que em oposição. Sem Heráclito, Parmênides seria um dogma; sem Parmênides, Heráclito seria um rumor.

            Depois vêm outros, mais próximos de nós, que tensionam esse legado.

            Bergson, por exemplo, diria que Parmênides confundiu o tempo com a sucessão espacial. A imobilidade do ser, para Bergson, seria um engano do intelecto que tenta fixar a duração. A vida é criação contínua, duração pura, e nela o ser não é esfera imóvel, mas impulso que se faz ao se fazer.

            A física quântica, por sua vez, ri dos princípios de identidade. As partículas não são algo que permanece; são probabilidades, relações, entrelaçamentos. O “ingênito e imperecível” parece estranho a um mundo onde matéria e energia se transmutam, onde o vazio não é vazio, onde o observador altera o observado.

            No entanto, algo de Parmênides permanece. A pergunta pelo “que é” não desapareceu. Por trás das aparências movediças, continuamos a buscar uma inteligibilidade do mundo, uma coerência que não seja apenas convenção. O real resiste. E essa resistência é a marca de que não estamos apenas inventando.

            A importância disso para entendermos o ser humano no universo talvez esteja aqui: somos os únicos que se perguntam pelo ser.

             Não apenas por como as coisas funcionam, mas por “que” elas são e por que são de tal modo?  Essa pergunta nos arranca do fluxo imediato e nos coloca diante da totalidade. Somos, como disse Pascal, um caniço pensante, frágil, mas capaz de abraçar o universo em pensamento.

            Parmênides nos lembra que não podemos viver apenas na multiplicidade dos sentidos, nas opiniões contraditórias, no “ser e não-ser” que os mortais de duas cabeças proclamam. É preciso, de vez em quando, subir na carruagem das éguas que avançam pelas lonjuras do coração e tentar ver o que permanece quando tudo o mais se agita.

            Mas que mundo possível podemos construir com essa filosofia?

            Não um mundo de imobilidade, que seria o fim da história, da criação, da liberdade. Mas um mundo que não se contente com a liquidez como destino. Um mundo que preserve a capacidade de dizer “É”: isto é justo, isto é verdade, isto é digno. Sem esses pontos de permanência, caímos no relativismo que tudo permite porque nada afirma.

            A esperança, a meu ver, não está em repetir Parmênides como dogma, mas em manter viva a pergunta que ele formulou. Em não nos contentarmos com o que “todo mundo diz” ou com o que “funciona” provisoriamente. Em buscar, na imensa fragmentação do presente, aquilo que pode ser sustentado como “um todo único e contínuo”, não uma esfera metafísica, mas um sentido para o humano.

            A madrugada avança. Os versos ainda dançam em minha mente: “As éguas que me levam avançavam pelas lonjuras do coração.”

            Talvez a carruagem não nos conduza a uma resposta definitiva. Talvez a própria viagem, o esforço de pensar, de não se contentar com as duas cabeças do senso comum, seja o que nos faz humanos.

            Há esperança nesse gesto.

            Não a esperança de uma esfera perfeita e acabada, mas a de que, entre tantos caminhos, ainda reste um que mereça ser trilhado, com a lentidão de quem avança pelas lonjuras do coração, montado na palavra que floresce.

 
 
 

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