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O "BLACK TIE" INVISÍVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de mar.
  • 4 min de leitura

O “BLACK TIE” INVISÍVEL

            Lembro como se fosse ontem: Santo Ângelo, 1978 e 1979, o casarão do Diretório Acadêmico do curso de Letras. Eu, com meus trinta e dois, trinta e três anos, ensaiando "Eles Não Usam Black Tie", de Gianfrancesco Guarnieri.

            A peça foi escrita em 1958, mas naquele presente sufocado pela ditadura militar, cada palavra soava como se tivesse sido escrita na véspera. Nós, jovens estudantes do interior gaúcho, ensaiávamos à noite, sob o risco de uma batida policial, e descobríamos que o texto de Guarnieri não era apenas sobre operários em greve, era sobre nós, sobre o país, sobre o medo e a coragem.

            O conflito entre Tião e o pai, Otávio, transcende a mera questão geracional. É a eterna disputa entre a segurança individual e a luta coletiva.

            Naqueles anos de chumbo, enquanto ensaiávamos no calor sufocante das missões, a pergunta ecoava: vale a pena sacrificar o presente por um futuro incerto? Otávio, o velho operário, sabia que a dignidade não se negocia. Tião, seduzido pela possibilidade de um emprego estável, achava que poderia construir sua felicidade particular sobre os escombros da luta dos companheiros.

            Um ano depois,1980, do outro lado do mundo, na distante Polônia, um eletricista chamado Lech Walesa começava a costurar, nos estaleiros de Gdansk, a alma do movimento Solidariedade. Que estranha sincronia! Enquanto aqui vivíamos o silêncio imposto pela baioneta, lá os operários poloneses desafiavam o governo comandado pelos soviéticos, com a força do sindicalismo livre.

            Os intelectuais da época, e lembro-me bem dos artigos que líamos clandestinamente no Pasquim e no Coojornal, traçavam paralelos: tanto aqui quanto lá, o operário descobria-se sujeito da história. Mas com uma diferença fundamental: na Polônia, o inimigo vestia o uniforme cinzento do Estado burocrático; aqui, o inimigo vestia farda, escondia-se nos porões da ditadura e oferecia, como suborno à consciência, o “milagre econômico.”

                        O pensador polonês Adam Michnik, anos depois, escreveria que a verdadeira força do Solidariedade estava em recusar a linguagem do poder estabelecido. Recusavam o black tie do partido único, da verdade oficial.

            E nós?

            Nós recusávamos o black tie da censura, do ufanismo forçado, do "Brasil, ame-o ou deixe-o".

            Foi nesse caldo de resistência que, em 10 de fevereiro de 1980, nascia oficialmente o Partido dos Trabalhadores, no Colégio Sion, em São Paulo.

            Sindicalistas do ABC, intelectuais, artistas e militantes de esquerda uniram-se para dar voz à classe trabalhadora que Guarnieri já dramatizara, consolidando o que viria a ser um dos principais partidos de esquerda do mundo.

            Liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, o PT surgiu como resposta orgânica à mesma opressão que denunciávamos nos palcos, um novo modelo de socialismo democrático, independente do sindicalismo oficial, para resistir à ditadura e construir, enfim, um país onde o black tie não fosse o passaporte para a cidadania.      

            O black tie, afinal, sempre foi essa vestimenta simbólica: quem o usa aceita o jogo, comparece ao banquete, faz parte do clube. Quem não usa, ou não pode usar, fica do lado de fora, olhando pela janela, com o estômago vazio de justiça.

            Hoje, 2026, caminhando pelas ruas de Porto Alegre, vejo que o “black tie” mudou de tecido, mas continua dividindo o mundo. Agora não é mais a farda explícita, nem a censura aberta. Agora o black tie é o algoritmo que decide quem merece crédito, é o endereço que define a qualidade da escola, é a cor da pele que determina a abordagem policial.

            Tião continua existindo, convencido de que pode fazer as pazes com o sistema, de que o emprego garantido vale mais que a luta coletiva. Otávio também persiste, teimoso, nos movimentos sociais, nas ocupações, nas periferias que resistem.

            O filósofo Slavoj Žižek, em alguma de suas palestras recentes, disse que vivemos tempos em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Talvez seja isso: o black tie tornou-se tão onipresente, tão naturalizado, que muitos nem percebem que o vestem. É o black tie da aceitação passiva, da revolta que se consome em redes sociais, da indignação que dura 24 horas. O black tie invisível.

            E nós, que ensaiamos Guarnieri sob a luz suspeita dos anos 70, talvez fôssemos ingênuos ao pensar que a peça envelheceria.

            Engano nosso. Ela não envelheceu. Nós, envelhecidos, é que ainda não aprendemos a lição. O mundo segue dividido entre os que comparecem ao banquete e os que limpam os restos. Entre os que usam black tie e os que vestem o macacão azul da lida diária. Entre Tião e Otávio. Entre a acomodação e a dignidade.

            E o mais trágico, meus caros, é que o palco continua o mesmo. Mudam-se os cenários, as luzes, os figurinos. Mas o drama, este velho drama humano de escolher entre o prato de lentilhas e o direito à primogenitura, permanece, teimoso como a memória daquele casarão de Santo Ângelo, onde, há  meio século, um bando de jovens teimosos insistia em gritar, em meio ao silêncio imposto, que há coisas que não se negociam.

            O black tie pode até mudar de modelo. Mas a exclusão, esta senhora antiga, continua usando o mesmo vestido.

            E nós, espectadores dessa comédia grotesca que insistem em chamar de civilização, seguimos sem saber ao certo se rimos ou choramos.

            Ou se, simplesmente, desistimos de escolher.

 
 
 

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