NOSSO OBITUÁRIO
- Carlos A. Buckmann
- 11 de mar.
- 3 min de leitura

NOSSO OBITUÁRIO
A luz pálida da madrugada ainda não venceu a cerração que encobre o Guaíba, mas o brilho frio da tela já me golpeia com a crueza do agora.
Leio, entre um gole e outro de mate, a notícia de mais um ataque americano ao Irã. O rastro de pólvora não é novo; ele apenas se estende, costurando as feridas abertas na Ucrânia, o massacre silencioso no Sudão e o abismo de Gaza. O mundo não parece estar em guerra; ele é a guerra, um organismo em convulsão constante onde a paz é apenas o intervalo para o recarregamento das armas.
Neste silêncio das quatro da manhã, a percepção do Antropoceno se torna quase tátil. Não somos mais apenas habitantes do planeta; tornamo-nos sua força geológica mais devastadora.
O ser humano deixou de ser o espectador da natureza para se tornar a própria catástrofe, o meteoro consciente que colide contra si mesmo. Diante dessa loucura que se normaliza em manchetes de portais, um pensamento me ocorre, uma tentativa de transcender o caos: "O homem é a única criatura que aprendeu a fabricar o próprio fim enquanto finge estar construindo o futuro."
A máxima de Plauto, Homo homini lupus (o homem é o lobo do homem), nunca foi tão literal. Mas o lobo de Plauto era um predador por necessidade biológica; o "lobo" moderno é um predador por ideologia e lucro. Transformamos a alteridade em alvo. O outro não é mais um semelhante, mas um obstáculo ou um recurso a ser extraído.
O que nos trouxe a esse estado de coisas? Talvez a resposta resida na desconexão profunda entre o ato de respirar e o ato de significar. É aqui que a voz de Oscar Wilde ressoa com uma precisão cirúrgica: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
A maioria de nós está presa na engrenagem da existência mecânica, a produção, o consumo, o medo e a reação.
Existir é um processo biológico e burocrático; viver, no entanto, exige a coragem da consciência, a audácia de reconhecer a sacralidade da vida alheia como se fosse a nossa. O mundo queima porque paramos de viver e passamos a apenas operar sistemas.
Este futuro distópico que agora chamamos de "presente" foi cartografado por mentes que viram a sombra antes do eclipse. George Orwell previu a vigilância que corrói a verdade; Aldous Huxley antecipou a nossa escravidão voluntária pelo prazer e pela distração; e Stefan Zweig, ao ver o mundo de ontem desmoronar, nos avisou sobre a fragilidade da civilização diante da barbárie técnica. Estamos vivendo o somatório de seus piores presságios.
A crítica que se impõe é severa: o Antropoceno não é um erro de percurso, mas o resultado final de uma humanidade que escolheu a acumulação em vez da contemplação. Se continuarmos a apenas existir como engrenagens de um moinho satânico de guerras e exploração, o amanhã será apenas um deserto com Wi-Fi.
O único caminho possível para evitarmos o abismo final do Antropoceno não passa por novas tecnologias ou tratados burocráticos, mas por uma Revolução da Alteridade.
Precisamos resgatar a ética da responsabilidade radical: o reconhecimento inegociável de que a vida do outro, seja ele iraniano, ucraniano, palestino ou vizinho de porta, é o limite absoluto da nossa própria existência.
Ou aprendemos a viver no sentido pleno de Wilde, honrando a raridade de estarmos aqui, ou seremos a primeira espécie a redigir, com orgulho técnico, o próprio obituário:
"O homem é a única criatura que aprendeu a fabricar o próprio fim enquanto finge estar construindo o futuro."
BETO BUCKMANN
Crônicas entre ideias e pólvora.




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