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A FELICIDADE COMO MOVIMENTO: REFLEXÕES NO BANCO DA PRAÇA

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

A Chegada da Desconhecida


Ela chegou sem que eu ouvisse seus passos. Sentou-se ao meu lado no banco de pedra, apoiou a bolsa sobre os joelhos e soltou um suspiro que parecia vir de um pulmão mais velho que o mundo. Eu, por minha vez, mantinha os olhos fixos no pequeno volume de capa desgastada: A Felicidade Desesperadamente, de André Comte-Sponville.


“Você está lendo um livro sobre felicidade”, disse ela. Não era uma pergunta.


“Estou”, respondi, fechando-o sobre o polegar, mantendo a página.


“E acha que ela cabe nessas letras miúdas?”


“Não sei. Acho que estou procurando.”


Ela sorriu. Não um sorriso de ironia, mas de reconhecimento.


“A felicidade não é um estado, mas um movimento.” Foi isso que me fez parar. O senhor já chegou nessa parte?


“Cheguei agora mesmo. Estava relendo, tentando entender.”


“Entender é simples. Viver é que é o problema. Você concorda com ele?”


“Comte-Sponville? Ainda estou decidindo.”


“Não. Com a frase. ‘Que a felicidade é um movimento, não um estado’.”


Dei de ombros, um gesto que a filosofia não me perdoaria.


“Somos criados para acreditar no contrário. Que a felicidade é um lugar aonde se chega. Uma casa definitiva.”


“É o que Pascal chamaria de distração”, disse ela, com a naturalidade de quem conversa sobre o tempo. “Todos os infortúnios dos homens provêm de uma única coisa: não saberem ficar em repouso num quarto.” Lembra?


“Lembro. Mas o repouso num quarto não me parece felicidade. Parece tédio.”


“Exato. Por isso movemo-nos. O erro não é o movimento. O erro é achar que o movimento vai parar.”


O Voo do Sabiá


Uma ave pequena, um sabiá talvez, pousou no chão de pedra diante de nós, bicou uma migalha invisível e foi embora. Acompanhamos com os olhos o seu voo curto, inútil, perfeito.


“Espinosa”, continuei, puxando da memória como quem puxa um lenço do bolso, “dizia que a felicidade não é uma recompensa pela virtude, mas a própria virtude. Uma potência de agir.”


“Potência de agir, movimento. Estamos dizendo a mesma coisa”, ela ajustou a bolsa no colo. “O problema é que queremos a potência sem o movimento. Queremos o bem maior sem a busca. Queremos o sentido mais profundo sem a profundidade.”


“Queremos chegar”, completei.


“Queremos descansar. E a vida não descansa. Você já percebeu que os jovens falam em felicidade como se fosse uma selfie? Algo que se captura, se exibe e se guarda. Os velhos, quando são sábios, falam em felicidade como quem fala do vento: sente-se agora, daqui a pouco mudou.”


Calei-me. A tarde em Porto Alegre caía sobre a praça da Alfândega com aquela luz ambígua que não sabe se é ouro ou cinza.


A Busca pela Felicidade


“Pois é”, retomou ela. “Por isso as pessoas que dizem ‘preciso ser feliz sempre’ estão pedindo um suicídio disfarçado de realização. Ninguém suportaria a felicidade como um estado fixo. O que suportamos é a felicidade como instante. Como uma visita que não pede licença, fica o tempo certo e vai embora.”


“E a busca incessante? O bem maior? O sentido mais profundo? Não seria essa a angústia? A busca que nunca se conclui?”


Ela olhou para frente, para os prédios que começavam a acender suas primeiras luzes.


“O senhor está aqui agora, neste banco, lendo um livro sobre felicidade, conversando com uma velha desconhecida. Isso é movimento. Isso é busca. E se você estivesse plenamente aqui, agora, sem exigir que este instante se prolongasse para sempre, sem exigir que eu dissesse a frase definitiva, sem exigir que o livro tivesse a resposta final... você não estaria, talvez, mais perto do que procura?”


“Mais perto, sim. Mas não seria ainda uma busca?”


“Sempre. E é isso que nos salva. A busca incessante, o bem maior, o sentido mais profundo, são verbos, não substantivos.”


A Dor e o Sofrimento


“E a dor? E o sofrimento? Entram nessa conta?”


“Entram. Como as curvas na estrada. Não são a estrada, mas são parte do percurso. Quem quer o movimento sem as curvas quer um movimento morto, uma esteira de academia. Lacan dizia que a única coisa que se pode fazer com a falta é contorná-la. O senhor conhece?”


“Sei. O desejo é a metonímia da falta.”


“Pois é. A felicidade não é o preenchimento. É o contorno. É o modo como a gente dança ao redor do que não tem.”


Uma lufada de vento frio subiu da rua, sacudiu as páginas do livro em minhas mãos. Fechei-o de vez.


O Vazio do Banco


Olhei novamente para ela. Não havia ninguém. O banco de pedra ao meu lado estava vazio. A praça, de repente, parecia maior, e o vento que antes sacudia as páginas agora se limitava a arrastar uma folha seca pelo chão.


Fiquei ali por mais alguns minutos, sozinho com o pequeno volume na mão. E percebi, com uma clareza que beirava o ridículo, que não me lembrava do rosto dela. Mas o rosto... era como se nunca tivesse existido. Como se eu tivesse dialogado, o tempo todo, com a margem do livro, com o eco de minha própria leitura, com aquela parte de mim que já sabia o que fingia ignorar.


“A felicidade não é um estado”, repeti para mim mesmo, enquanto me levantava. É um movimento.


Conclusão: A Eternidade do Instante


Talvez estejamos todos condenados a essa curiosa loucura: a de buscar um bem maior que só existe enquanto se busca; um sentido mais profundo que só se revela na superfície do agora; uma felicidade que, por ser movimento, nos salva justamente por nunca nos deixar chegar.


Desapareceu no ar, como tinha vindo. Eu fiquei com a certeza de que, em matéria de felicidade, o único lugar definitivo é o instante, e que habitá-lo, ainda que por um segundo, já é uma forma de eternidade.

 
 
 

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