NA CORDA BAMBA
- Carlos A. Buckmann
- 7 de mai.
- 4 min de leitura

NA CORDA BAMBA(*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Escolhi esta canção não por acaso. Ela caiu em minhas mãos como cai a tarde, de repente, pesada, um viaduto sobre a memória.
Era 1979, o Brasil ainda sufocava sob as botas do medo, e João Bosco e Aldir Blanc desenharam na música um dos retratos mais precisos da alma brasileira: a alma que cambaleia.
Elis Regina, com aquela voz que era um punhal aceso, consagrou a canção. Ouvindo-a hoje, percebo: a filosofia já estava ali, disfarçada de lua e bêbado. Basta saber ler nas entrelinhas.
“Caía a tarde feito um viaduto / E um bêbado trajando luto / Me lembrou Carlitos”
A tarde que desaba é o tempo histórico que nos esmaga. O viaduto é a estrutura, política, moral, sob a qual nos abrigamos sem ter para onde fugir. O bêbado de luto: eis o filósofo involuntário.
Lembra Carlitos, o pequeno vagabundo de Chaplin, que ria para não enlouquecer. Walter Benjamin já notara: o palhaço é o último guardião da melancolia. Nesse bêbado, vejo o povo brasileiro, embriagado de saudade e repressão, vestindo luto por si mesmo.
“A lua tal qual a dona do bordel / Pedia a cada estrela fria / Um brilho de aluguel”
A lua, soberana noturna, reduzida a cafetina. Que filosofia mais cruel!
Até os astros, na falta de luz própria, precisam alugar o brilho. É a lógica do capital, diria Marx (e Adorno completaria: a indústria cultural transforma tudo em mercadoria). As estrelas frias, inatingíveis, oferecem seu fogo por um preço. O céu vira negócio. A vida vira negócio. A ternura, negócio.
“E nuvens lá no mata-borrão do céu / Chupavam manchas torturadas / Que sufoco!”
O céu é um mata-borrão, papel ordinário que absorve a tinta dos horrores. As nuvens chupam manchas torturadas. Torturadas: a palavra não é figura, é denúncia. A ditadura brasileira torturou. E o céu, testemunha mudas, absorvia tudo, como a sociedade que viu e calou. “Que sufoco!”: o grito que falta em tantos relatórios oficiais.
“Louco, o bêbado com chapéu coco / Fazia irreverências mil / Pra noite do Brasil, meu Brasil / Que sonha com a volta do irmão do Henfil”
O chapéu coco, símbolo do homem sério, do funcionário, da ordem, usado pelo louco bêbado. A irreverência como arma.
Henfil, cartunista exilado, seu irmão (o “irmão do Henfil”, é Betinho, é o exilado, o morto, o que partiu... são tantos). Sonhar com a volta é sonhar com a justiça. Foucault nos ensina que o louco, na sua liberdade, revela as grades da razão normalizadora. O bêbado dança. A noite do Brasil assiste, boquiaberta.
“Com tanta gente que partiu / Num rabo de foguete / Chora a nossa pátria, mãe gentil / Choram Marias e Clarices / No solo do Brasil”
Partir num rabo de foguete: morte violenta, sumiço, exílio. “Mãe gentil”, ironia ácida sobre o Brasil cordial. Marias: o povo anônimo. Clarices: as artistas, as intelectuais, Clarice Lispector que tudo sentia. O choro é coletivo, mas é surdo. Freud, no “Luto e Melancolia”, mostra que o luto não elaborado vira doença. O Brasil ainda não elaborou seus mortos. Chora, mas não sabe o choro. Ou finge que não ouve.
“Mas sei que uma dor assim pungente / Não há de ser inutilmente”
Eis a virada. Nietzsche diria: o que não me mata me torna mais forte. Mas aqui não é força bruta, é fé na necessidade da dor. Não há sofrimento gratuito. A pungência exige sentido. Se a dor não fosse pungente, não haveria arte. Mas há a arte. Há essa música. Há a crônica que escrevo agora. Então talvez a utilidade esteja justamente em nomear o que arde.
“A esperança dança / Na corda bamba de sombrinha / E em cada passo dessa linha / Pode se machucar / Azar, a esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar.”
A esperança equilibrista. Não é otimismo ingênuo, não é promessa de amanhã bonito. É risco. É caminhar sobre um fio com sombrinha, objeto frágil, quase cômico. A cada passo, pode cair. “Azar”: palavra brutal, seca. E, no entanto, o show continua.
A filosofia antiga conta que, quando Pandora abriu a jarra (não a caixa, erro de tradução), todos os males escaparam: velhice, doença, ódio, inveja, loucura. Só um ficou dentro, preso por vontade de Zeus ou por hesitação da própria Pandora: Élpis, a Esperança. Hesíodo a chama de “desgraça”, pois é ela que impede o homem de se render ao sofrimento, condenando-o a sempre recomeçar.
Sem esperança, o desespero seria completo e, paradoxalmente, pacífico. Com ela, somos condenados a tentar. Aí está a armadilha divina.
A equilibrista da canção é Élpis moderna. Ela não promete chão firme. Promete apenas o espetáculo. Cada passo é uma queda possível. Mas parar não é opção. “O show de todo artista tem que continuar”, e o artista, aqui, é o próprio humano. O brasileiro. O que sobreviveu à tarde em forma de viaduto.
A eterna atualidade da canção é assustadora. Hoje não há ditadura militar explícita, mas há outras cordas bambas: a democracia ameaçada, a fome que volta, a insensibilidade que vira regra.
E o bêbado de luto continua nas esquinas, só trocou o chapéu coco por um celular e posta irreverências mil em redes que vigiam tudo.
A lua ainda é a dona do bordel. As estrelas seguem frias. O mata-borrão do céu agora se chama algoritmo. E as manchas torturadas? Ainda estão lá, chupadas por nuvens invisíveis.
Escolhi essa letra porque ela interpreta a filosofia de uma época, e a nossa época, surpreendentemente, é a mesma. O mesmo sufoco. A mesma dor pungente. A mesma esperança que dança e se machuca.
Hoje, ao anoitecer, vi um homem trajando luto encostado num poste. Não sei se estava bêbado. Mas suas mãos desenhavam no ar algo como um guarda-chuva. E ele andava em linha reta sobre o asfalto, com tamanha firmeza que parecia estar sobre um fio. Eu quis gritar: cuidado, equilibrista! Mas me calei. Ele sabia. Ele sempre soube. O show, apesar de tudo, tem que continuar.
Caía a tarde feito um viaduto.
E eu, cronista de mim mesmo, segui viagem.
Com uma sombrinha imaginária. E o coração na corda bamba.
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