MILHO AOS POMBOS
- Carlos A. Buckmann
- 30 de abr.
- 3 min de leitura

MILHO AOS POMBOS (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Outra canção de Zé Geraldo, aquela em que o homem contempla a cidade e pergunta: “Cadê o cidadão?”.
Filosofia urbana pura, dessas que aprendemos no asfalto e nos bancos de praça. E é justamente de uma praça que vou falar hoje. De mim, sentado num banco, com um punhado de milho na mão e um turbilhão no peito.
“Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí queimando pestanas, organizando suas batalhas, seus mapas, seus drones, seus discursos inflamados, os guerrilheiros nas alcovas preparam na surdina suas mortalhas.”
De um lado, o plano de ferro; de outro, a certeza da morte. Cada conflito novo amontoa mais escombros sobre escombros. E eu aqui na praça, dando milho aos pombos.
Nietzsche já desconfiava: o poder enlouquece, e o contrapoder apenas imita o monstro que combate. No meio, o homem comum, que só quer ver os pombos bicarem seus grãos.
“Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil / O pão, o arroz, o feijão, o aluguel /Uma nova corrida do ouro / O homem comprando da sociedade o seu papel / Quando mais alto o cargo maior o rombo”
Agora o ouro chama-se criptomoeda, chama-se cargo comissionado, chama-se influência digital.
Pascal falava do “divertissement”, essa fuga desesperada de si mesmo. Nós corremos atrás de prestígio e poder como se houvesse um paraquedas no fim. Não há. E eu aqui na praça, dando milho aos pombos. Eles, ao menos, não fingem que o grão é outra coisa.
“Eu dando milho aos pombos no frio desse chão / Eu sei tanto quanto eles se bater asas mais alto / Voam como gavião / Tiro ao homem tiro ao pombo / Quanto mais alto voam maior o tombo.”
Espinosa diria que não sabemos desejar com alegria; desejamos a altura sem aceitar o abismo. O ambicioso cai porque acreditou ser pássaro de rapina, quando todo voo de pombo é humilde e circular. E eu, aqui, espalhando milho, aprendo com eles a planar rente ao chão.
“Eu já nem sei o que mata mais / Se o trânsito, a fome ou a guerraSe chega alguém querendo consertar / Vem logo a ordem de cima / Pega esse idiota e enterra / Todo mundo querendo descobrir seu ovo de Colombo”
A solução é sempre enterrar o problema, nunca a raiz.
Hannah Arendt chamaria isso de banalidade do mal, não a grande maldade planejada, mas a pequena burocracia do sufocamento. Todo mundo quer descobrir seu ovo de Colombo, a ideia genial que resolve tudo sem doer. E eu aqui na praça, dando milho aos pombos. O ovo de Colombo, por falar nisso, era só um ovo. Os pombos também põem ovos, mas ninguém faz deles um caso de Estado.
Isso tudo acontecendo, os comandantes, as batalhas, os escombros, a carestia, a corrida do ouro, os tombos, as ordens de enterrar; e eu aqui na praça, dando milho aos pombos.
E repito: dando milho aos pombos no frio desse chão.
Lembra daquela canção, “Cadê o cidadão?” Pois é. O cidadão sumiu, foi substituído pelo guerreiro abstrato, pelo político de escritório, pelo guerrilheiro de alcova.
Mas o homem de verdade está neste banco de praça.
Sou eu.
Sou você, talvez.
Aquele que, em meio ao estrondo do mundo, escolheu o gesto miúdo, o cuidado insignificante, a atenção aos pombos que não vão mudar a história, mas que comem milho na palma da mão e nos ensinam, com sua leveza de penas, que o voo mais alto nem sempre é o mais sábio.
Às vezes, a filosofia urbana se resume a isso: sentar, espalhar grãos, e deixar que o mundo, com suas guerras e seus rombos, continue girando.
Sem nós.
Ou, quem sabe, por nossa causa mesmo.
Causa dos que insistem em alimentar o que é pequeno, enquanto os grandes se devoram.
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