top of page

MEDO DA CHUVA

  • Carlos A. Buckmann
  • 25 de abr.
  • 6 min de leitura

MEDO DA CHUVA

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Entre tantas canções possíveis para a nova crônica da coletânea, meu pensamento insistia em uma joia oculta de Raul Seixas, uma daquelas que as rádios não desgastaram, mas cuja filosofia se infiltra na alma como uma água escura e paradoxal.

            Revirava a discografia mental do Maluco Beleza quando a televisão trouxe a notícia triste e repetitiva de mais um feminicídio. Me dei conta de que a escolha já estava feita pela própria dubiedade do existir: “MEDO DA CHUVA”. (*)

            Era a crônica que me escolhera. Porque há músicas que nos cantam, e esta, em sua crítica ácida aos ritos sociais, canta a claustrofobia de toda uma civilização que construiu jaulas e as chamou de lares.

            Sento-me para escrever, e a primeira estrofe já me desconcerta com a força de uma rebelião ontológica:

            “É pena que você pense / Que eu sou seu escravo / Dizendo que eu sou meu marido / E não posso partir”.

            Raul não fala apenas de um casamento; ele disseca a própria estrutura de uma sociedade que se funda na posse, no transformar o outro em objeto imóvel.

            A figura do “marido”, e hoje vale mais para “esposa”, é o papel social que aprisiona o ser, uma sentença proferida pelo outro que tenta definir minha essência de fora para dentro.

            Isso me remete imediatamente a Jean-Paul Sartre e sua frase cortante: “O inferno são os outros”. Para Sartre, o olhar alheio nos petrifica, nos reduz a uma essência fixa, nos tira a liberdade de sermos puro projeto, pura transcendência.

            Ao dizer “eu sou seu marido” (sua “esposa”), a voz da canção denuncia essa coisificação. Tornar-se marido/mulher é deixar de ser vento para ser âncora, é ter a potência do “partir” amputada por um contrato que a sociedade naturalizou como sagrado.

            A crítica se aclara: o rito social do casamento, visto por essa lente, é um pacto de escravidão consentida, onde o verbo “ser” é usado como algema.

            A imobilidade imposta ganha uma imagem perfeita e melancólica na sequência:

            “Como as pedras imóveis na praia / Eu fico ao teu lado sem saber / Dos amores que a vida me trouxe / E eu não pude viver”.

            O cronista que há em mim se angustia com a potência dessa metáfora. As pedras na praia são um paradoxo: estão à beira da imensidão, do movimento incessante do mar, mas permanecem paralisadas, condenadas a testemunhar a vida sem vivê-la.  

            “Ficar ao lado sem saber” é o retrato da alienação afetiva, da existência inautêntica que Heidegger descreveria como a vida no modo da impersonalidade, o “a gente”. Vive-se o script do amor romântico, o rito da fidelidade perpétua, mas o ser, em sua nudez, desconhece a vastidão dos afetos que a “vida trouxe”.

            É a trágica situação de quem está presente com o corpo, mas cuja alma vaga por mares nunca navegados, amores nunca vividos.

            Como um trovão que rasga o céu do conformismo, eclode o refrão libertário:

            “Eu perdi o meu medo, o meu medo / O meu medo da chuva / Pois a chuva voltando pra terra / Traz coisas do ar”.

            A chuva, aqui, é o símbolo maior do paradoxo que me propus a desvendar.

            A sociedade nos ensina a temer a chuva como transtorno, como algo que desorganiza, que adoece, que estraga. Ter medo da chuva é ter medo do imprevisível, do caos, daquilo que foge ao controle dos ritos ensolarados da vida perfeita.

            Mas o eu-lírico descobre que a chuva é um ciclo de retorno e nutrição. Ela “volta pra terra trazendo coisas do ar”, ou seja, carrega o etéreo para o concreto, dissolve as fronteiras.

            Perder o medo da chuva é abraçar uma filosofia da impermanência e da mistura, é assumir uma postura dionisíaca, como diria Nietzsche, em oposição à rigidez apolínea das formas fixas e dos contratos sociais. A chuva é o devir que lava a estática das “pedras imóveis”, é o antídoto líquido para a solidez pétrea das instituições.

            A descoberta se aprofunda:

            “Aprendi o segredo, o segredo / O segredo da vida / Vendo as pedras que choram / Sozinhas no mesmo lugar”.

            Eis a chave de ouro da sabedoria raulseixiana: o segredo da vida não se revela no êxtase do partir, mas na melancolia de quem fica. Olhar para o que é estático não para imitá-lo, mas para aprender com sua dor silenciosa. As pedras “choram” porque, mesmo em sua aparente impassibilidade, há nelas uma ânsia de fluxo, uma vontade de serem arrastadas pelo mar da existência.

            Raul revela, com isso, o que Spinoza talvez chamasse de “conatus”, a força interna que cada coisa tem para perseverar em seu ser, mas que, nas pedras aprisionadas pelo rito social, transforma-se em choro, em melancolia, em sonho. O segredo da vida é perceber que toda fixidez é uma forma de sofrimento.

            A canção não se furta a ser uma martelada nos pilares da tradição:

            “Eu não posso entender tanta gente / Aceitando a mentira / De que os sonhos desfazem / Aquilo que o padre falou”.

            Raul ataca o cerne da crítica à sociedade e seus ritos: a introjeção da culpa. A “mentira” é a de que a liberdade do sonho, o desejo de romper com o juramento, anula ou corrompe a verdade sagrada proferida pelo padre.

            É a institucionalização do medo, sequestrando a potência onírica do indivíduo.

            O “padre”, figura de autoridade espiritual e social, consolida o rito do matrimônio como uma verdade eterna e imutável, diante da qual o sonho individual é uma heresia.

            Como toda instituição de controle, na visão de um Foucault, a Igreja cria um discurso que se infiltra na subjetividade, fazendo-nos vigiar e punir a nós mesmos por nossos desejos mais íntimos. “Aceitar a mentira” é render-se à biopolítica do afeto, é calar a voz interior que sussurra: “Há mais vida além dessa jaula”.

            O verso seguinte é uma navalha existencial:

            “Porque quando eu jurei meu amor / Eu traí a mim mesmo”.

            Essa confissão é de uma lucidez dilacerante. Num mundo regido por ritos, jurar amor eterno é, paradoxalmente, um ato de autonegação. O eu que jura no altar é um eu capturado pelo ideal social, que trai o devir que ele próprio é.

            O juramento, ato de fala máximo do rito, é um tipo de má-fé sartriana: finjo, para mim e para o outro, que sou uma essência que pode prometer algo para sempre, quando, no fundo, sei que sou liberdade condenada a mudar.

            A conclusão é um soco no estômago do romantismo ocidental:

            “Hoje eu sei que ninguém nesse mundo / É feliz tendo amado uma vez, uma vez”.

            Não se trata de apologia à promiscuidade, mas de uma filosofia da multiplicidade. A felicidade, para Raul, não reside na segurança da única vez, no amor-coleção, no selo da exclusividade. Ela está no fluxo, na chuva que vai e volta, na possibilidade de renascer para novos encontros. É a defesa radical de uma existência polifônica contra a melodia única e ensurdecedora da regra.

            Ao final, a repetição da estrofe funciona como um mantra que vai se transformando sutilmente. Primeiro, “Vendo as pedras que choram / Sozinhas no mesmo lugar”, e depois, na repetição final, um deslocamento poético extraordinário:

“Vendo as pedras que sonham / Sozinhas no mesmo lugar”. 

            O choro se transfigura em sonho. Essa é a centelha que nos redime.

            Mesmo as pedras imóveis, condenadas pelo rito, sonham. A melancolia não é o fim; ela é a gestação de uma potência. O sonho da pedra é o mar, é o movimento, é a chuva que virá buscá-la, mesmo que em lágrimas milenares.

            A pedra que sonha é a prova de que a liberdade, ainda que em estado de latência onírica, jamais pode ser completamente extirpada pelo código social.

            E agora, que a chuva começa a cair mansa lá fora, lavando o asfalto cinza, entendo.

            Passei a crônica inteira falando de amor, de ritos e de pedras, mas Raul, o Maluco Beleza, falava de mim. Deste cronista que, talvez, também tenha se deixado petrificar por alguma praia, por algum olhar que o definiu, por algum medo ancestral de se molhar.

            Mas o segredo da vida,  esse se aprende vendo. Vendo as pedras que choram e que, teimosamente, apesar de tudo, sonham.

            Perder o medo da chuva não é só aceitar o caos, o novo, o imprevisível.

            É compreender que a chuva, em seu eterno retorno, não cai para nos afogar, mas para nos lembrar de que até a menor das poças reflete o céu inteiro.

            A chuva é o ar que se faz terra, é o céu que nos toca.

            Que a chuva, agora, caia sobre mim e dissolva minhas certezas. Que eu me perca do meu lugar imóvel e me encontre no fluxo.

            Pois no fim, e desde o princípio, somos todos pedras que sonham com a inundação.


(*) ASSISTA A MÚSICA NO YOUTUBE

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page