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ME ACALMO DANANDO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de mai.
  • 3 min de leitura

ME ACALMO DANANDO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Vamos lembrar de Ângela Ro Ro. Não aquela dos holofotes estridentes, mas a mulher de voz rouca e olhos de quem viu o fundo do poço e ainda assim decidiu cantar.

            Carioca, nascida em 1949, viveu os anos de chumbo e os de abertura com a mesma intensidade cortante. Foi presa, usou drogas, amou desmedidamente. Dizem que compôs “Me Acalmo Danando” em uma madrugada de insônia, após mais um naufrágio afetivo. E é dessa madrugada que quero falar.

            Pego a letra como quem pega um espelho. A filosofia que ali se anuncia é a do desalento ativo, do sujeito que se debate contra o silêncio do outro.

            “Eu é que fico a dizer e você não diz nada / Eu é que fico a sorrir e a fazer palhaçada / Como é triste beijar sem ser beijada / Como é duro amar sem ser amada”

            Sartre: “o inferno são os outros”.  Aqui, o inferno é a presença muda, a boca que não responde. O cronista (eu, você, qualquer um) vira palhaço de sua própria dor, gesticulando no vazio.

            Quantos relacionamentos contemporâneos não se resumem a monólogos trocados por WhatsApp, onde um elogia e o outro apenas visualiza? Beijar sem ser beijado: ato tão triste quanto programar um encontro e aguardar no restaurante vazio. Amar sem ser amado: a assimetria que Sartre chamaria de “masoquismo”, o gozo na própria anulação.

            “Meu tormento não passa e você adiando / É o mar que me traga, é o barco afundando / É a ilha deserta que eu chego atracando / Ilusão e quimera de alguém se salvando”

            Kierkegaard reconheceria aqui a repetição desesperada. O tormento que não passa porque o outro adia a resposta, adia o fim, adia o amor. A metáfora náutica: afundar-se deliberadamente, atracar em ilha deserta.

            Qual esperança há senão a quimera de se salvar? Hoje chamamos isso de “ficar”,  um estado líquido onde ninguém ancora, todos derivam. A ilha deserta é o perfil de rede social: belo, solitário, inatingível. Atracamos ali, achando que desembarcamos, mas é só miragem.

            “Eu que suporto e reclamo, lhe afasto e me chamo / Eu a saída da entrada por baixo do pano / Ser o excesso de brilho acaba ofuscando / Mas ser o início da era acaba matando”

            Nietzsche nos lembra que o abismo também olha para nós. Suportar e reclamar: a dialética do dependente afetivo. Afastar e chamar de volta; o movimento pendular que lembra o “jogo de desinteresse” de Pascal, onde nos distraímos para não encarar o vazio. “Ser o excesso de brilho” equivale a ser o sol da relação: ofusca, cansa, torna-se insuportável. Mas “ser o início da era”, ser a primeira página de um novo tempo, é ainda mais letal, pois carrega a responsabilidade de tudo.

            No amor líquido de Bauman, ninguém quer ser a origem; todos preferem o acaso do match.

            “Sua presença destrói todos meus desenganos / Minha ausência causou-lhe uma série de danos / Tento provar o contrário e adormeço errando / Amo somente um vazio e me acalmo danando”

            O paradoxo final. A presença do outro destrói os desenganos, ou seja, quando ele está perto, até as certezas negativas desmoronam.

            Mas a ausência também fere. Como escapar? Tentar provar o contrário (que não ama, que pode viver sem) é o último ato de resistência, mas o sono sempre chega com o erro.

            Amar um vazio, Schopenhauer sorriria amargo: o amor é a astúcia da vontade de vida, uma ilusão que nos prende à repetição. E, no entanto, há a dança. “Me acalmo danando”: danando como dançar, ou como “ir danando” (ir embora)? Ambas. Dançar é o movimento que acalma porque ritualiza o caos. Virar as costas e sair dançando é o gesto de quem não perde a graça mesmo na derrota.

            Ângela, que viveu o excesso, a prisão, o escândalo, encontrou na música seu modo de danar. Não foi uma vida pacata, tampouco um amor pleno. Mas sua obra permanece, eis a eterna atualidade. Quantos de nós, nesta noite, não estamos amando um vazio?

            O emprego que não promove, a pessoa que não decide, o sonho que não se realiza. E quantos de nós, após o enésimo erro, colocam fones de ouvido e dançam sozinhos na sala? É a dança do desespero manso, a filosofia que não resolve mas embala.

            Ângela Ro Ro sabia: acalmar-se danando não é vencer. É resistir com estilo.

            E talvez isso baste para quem, como ela, aprendeu que beijar sem ser beijado é triste, mas parar de beijar é morto.

(*) Acesse o clipe no YouTube

 
 
 

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