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"LOS HERMANOS"

  • Carlos A. Buckmann
  • 28 de fev.
  • 5 min de leitura

            O Café Entre Fluxos, naquela noite, estava diferente. Quando cheguei para abrir, ainda a tarde caía, já encontrei a casa transformada: ao lado do balcão, um pequeno palco de madeira bruta, dessas que se montam em praças de interior, sustinha quatro banquinhos. Sobre cada um, um instrumento. Três violões, um deles com o encordoamento invertido, para algum músico canhoto, pensei, e um bombo leguero, esse tambor que os índios da cordilheira usam para falar com os deuses ou com os mortos, conforme a necessidade.

            O cheiro do café misturava-se com um odor de araucária molhada, como se a noite trouxesse consigo a memória das serras. As mesas de madeira escura tinham ganho toalhas vermelhas, e velas tremeluziam em copos de vidro, projetando sombras dançantes nas paredes. Pelas janelas abertas, entrava um vento frio que fazia as chamas inclinarem-se, como se também elas quisessem ouvir melhor.

            Os frequentadores, nessa noite, não eram os habituais. Identifiquei apenas velho anarquista. Nenhum sinal da poetisa, do casal que discutia felicidade. Em seu lugar, uma multidão murmurante ocupava todas as cadeiras. Falavam em português, em espanhol, e numa estranha mistura dos dois, um portunhol que parecia a língua oficial da dor. Eram figuras de semblante triste, como almas marcadas por cicatrizes que o tempo não conseguiu fechar.

            Reconheci alguns. Hebe de Bonafini, a líder das “Madres de Plaza de Mayo” com seu lenço branco na cabeça, olhando para lugar nenhum com a determinação de quem aprendeu a esperar contra toda a esperança. Salvador Allende, o médico que foi presidente e pagou com a vida, os olhos fixos num horizonte que só ele via. Carlos Marighella, o guerrilheiro, com a calma perigosa de quem já não tem nada a perder. Outros não consegui identificar, rostos anônimos, mas igualmente marcados, como se todos tivessem bebido do mesmo veneno.

            Um silêncio repentino, desses que se ouvem, fez todas as cabeças virarem-se para o palco. Em cada banquinho, como se tivessem estado sempre ali, surgiram quatro figuras: Atahualpa Yupanqui, com a serenidade da Pampa; Victor Jara, as mãos que os generais esmagaram, mas não calaram; Violeta Parra, a voz áspera como terra seca; Mercedes Sosa, “La Negra”, com aquele porte de quem carrega um povo nas costas.

            Ninguém disse nada. Eles simplesmente começaram.

            Violeta Parra pegou no violão e, sem apresentações, cantou "La Carta". A voz dela era um rasgo na noite, e cada palavra parecia sair de uma ferida antiga. Quando chegou ao estribilho, a sala inteira cantou com ela, não em coro ensaiado, mas como quem responde a um chamado. Hebe de Bonafini cantava com os olhos fechados, e eu percebi que as lágrimas lhe escorriam sem que ela as limpasse.

            Depois foi Victor Jara. Segurou o violão canhoto, aquele com as cordas invertidas, e começou "Duerme, duerme Negrito". A canção de embalar que é também um grito, uma denúncia, uma oração. Allende, na primeira fila, acompanhava em silêncio, mas os lábios mexiam-se, como se repetisse cada palavra para si mesmo. No estribilho, todos cantaram: "Duerme, duerme negrito, que tu mama esta en el campo, negrito..." A voz de Marighella, grave, juntou-se às outras, e por um instante a guerrilha e o governo cantaram juntos a mesma canção.

            Mercedes Sosa levantou-se. Pegou no microfone como quem pega numa bandeira. Repicando o bombo leguero, cantou "Alfonsina y el mar". A sala emudeceu. A canção sobre a mulher que caminhou para o mar e não voltou, sobre a loucura que é também lucidez, sobre a morte que é também escolha. Quando Mercedes chegou ao verso "te vas Alfonsina con tu soledad", o silêncio era tão denso que se podia ouvir o vento lá fora. Mas no estribilho, quando a voz dela se ergueu, todos cantaram. Até eu, que devia servir, cantei baixinho, esquecido das minhas obrigações.

            Por fim, Atahualpa Yupanqui. Ergueu os olhos para o teto, como se falasse com as montanhas, e começou "Los Hermanos". A canção sobre a irmandade dos que sofrem, sobre a América Latina como um só corpo ferido. E então, os quatro juntaram as vozes. Violeta, Victor, Mercedes e Atahualpa cantaram juntos o coro, e a sala inteira respondeu. Hebe, Allende, Marighella, os rostos anônimos, todos cantaram como se a canção pudesse, por um instante, curar o que a história partiu: “Yo tengo tantos Hermanos, que no los puedo contar, y una hermana muy hermosa que se llama LIBERTAD!”

            O garçom que contratei às pressas, um rapaz novo, com jeito de quem nunca viu tanta dor junta, desdobrava-se a servir vinho tinto. Copos cheios, copos vazios, copos que se erguiam em silêncio como brindes a fantasmas. O vinho era chileno, argentino, brasileiro. tinto, sempre tinto, como o sangue que aquelas figuras tinham derramado ou visto derramar.

            Entre uma música e outra, ouvia-se o diálogo baixo das figuras presentes. Hebe falou com Allende sobre os desaparecidos, sobre a memória que não se entrega. Marighella trocou palavras com um guerrilheiro colombiano cujo nome não captei, sobre táticas e sonhos e o preço de ambos. Num canto, uma mulher de lenço na cabeça, outra mãe, outra avó, contava a uma jovem de olhar assustado como se aprende a viver com a ausência.

            A noite foi um misto de tristes recordações e demonstrações de bravura indômita. Cada canção era uma ferida que se abria, mas também uma cicatriz que se mostrava. Cada estribilho cantado em coro era um ato de resistência, uma prova de que, apesar de tudo, ainda havia voz.

            Quando a noite já ia alta, eles desapareceram. Não se levantaram nem se despediram. Simplesmente deixaram de estar ali, como se a música os tivesse levado de volta para onde vieram. Os banquinhos ficaram vazios, os violões imóveis, o bombo leguero em silêncio. Os frequentadores, um a um, foram saindo em silêncio. Hebe foi a última, o lenço branco ainda na cabeça, o olhar fixo no palco vazio.

            Fiquei arrumando as mesas, a recolher os copos de vinho, a pensar. Violeta, Victor, Mercedes, Atahualpa, quatro vozes que cantaram a dor e a dignidade de um continente. Hebe, Allende, Marighella, rostos da mesma moeda, da mesma luta, da mesma esperança teimosa. E todos os outros, os anônimos, os que não têm nome, mas têm rosto, os que continuam a cantar mesmo quando acham que ninguém ouve.

            A América Latina, pensei, não é um lugar. É uma ferida que canta. Uma cicatriz que aprendeu a fazer-se melodia. Uma dor que, em vez de emudecer, encontrou na música a única forma possível de resistência.

            Porque quando as balas calam, as canções continuam. Quando os generais mandam esquecer, os estribilhos lembram. Quando a morte parece vencer, o coro responde: ainda estamos aqui.

            No meu livro de guardanapos, onde guardo as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Violeta Parra deixou no ar, como quem não quer deixar, mas deixa:

            "Canto lo que me duele, porque el dolor, cuando se canta, se vuelve memoria. Y la memoria es la única victoria que no nos pueden quitar."

            E o Café Entre Fluxos fechou as portas naquela madrugada, guardando no silêncio o eco de quatro vozes e de um continente inteiro a cantar a sua própria sobrevivência.

 
 
 

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