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JARDINS DA BABILÔNIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de mai.
  • 4 min de leitura

JARDINS DA BABILÔNIA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Lembro-me de quando Rita Lee e Lee Marcucci, o baixista da Tutti Frutti, sentaram-se para compor “Jardins da Babilônia”.

            Era uma parceria breve, mas fértil, aquela banda que acompanhava Rita com a precisão de um relógio desregulado e a alma de um circo voador.

            Viajavam juntos pelos palcos do Brasil em uma kombi que mais parecia uma arca de Noé psicodélica, onde cada instrumento era um bicho solto. Durou pouco, como tudo que é intenso, mas deixou rastros. Um desses rastros é esta canção, que insiste em me visitar todas as vezes que o mundo desaba e eu preciso lembrar que tenho asas.

            “Suspenderam os jardins da Babilônia.”

            Eis a primeira constatação filosófica: o que é belo, grandioso e construído com suor coletivo pode ser suspenso de um dia para o outro. Os jardins, uma das maravilhas do mundo antigo, não passam hoje de pó e memória.

            Assim também as nossas certezas, os nossos projetos, os amores que juramos eternos. Espinoza já notava que a alegria é o aumento da potência de agir, mas esqueceu de avisar que o mundo adora suspender nossas potências. Diante disso, Rita responde:

            “E eu pra não ficar por baixo / resolvi botar as asas pra fora.” 

            Não há lamento maior do que a paralisia. Quem perde os jardins, que fabrique asas.

            “Quem não chora dali, não mama daqui, diz o ditado.”

            O velho saber popular, tão cruel quanto honesto. É o reconhecimento de que, neste vale de lágrimas e leite, o choro é moeda de troca. Schopenhauer diria que a vida oscila entre a dor e o tédio; Rita acrescenta que, entre um e outro, há uma fila para mamar. E então ela sentencia:

            “Quem pode, pode, deixa os acomodados que se incomodem.”

            A revolta alegre contra a mediocridade. Nietzsche, que amava dançar sobre os destroços das morais acomodadas, certamente assinaria embaixo. Mas a canção resiste.

            “Minha saúde não é de ferro, não, mas meus nervos são de aço.”

            Ecoa o estoicismo de Sêneca, temperado com a ironia de quem sabe que o corpo falha antes da vontade. Os nervos de aço não são imunes à dor, são a própria dor transformada em estrutura. É a recusa ao vitimismo frágil, a mesma postura de quem, no olho do furacão, ainda segura o leme.

            Atualíssimo: quantos de nós, esgotados pelos dias insones e pelas notícias terríveis, ainda assim nos levantamos? Não porque sejamos heróis, mas     porque aprendemos a ser aço sem deixar de sangrar.

            “Pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesma faço, ou não.”

            Belo paradoxo, digno de Heráclito, que via na contradição a mãe de todas as coisas. A ação que se parece com o oposto do que pede. Se o mundo é um pornô de estímulos, o berro pelo silêncio é o último recurso do ouvinte cansado. E se o barulho falta, que se faça o próprio barulho.

            Não é à toa que os movimentos sociais de hoje, de um protesto a uma greve, usam a própria voz como megafone. Rita anteviu a autogestão do ruído.

            “Mas pegar fogo nunca foi atração de circo, mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo.”

            Cuidado: ela não romantiza a destruição. Diz que o fogo, em si, não é número de palhaço, ou seja, não é brincadeira. Tragédia não é entretenimento. Contudo, na contramão do bom senso, ela admite que, uma vez aceso, o incêndio produz um espetáculo “caloroso”.

            Walter Benjamin, ao analisar a estetização da política, temeria essa frase. Mas Rita a usa com ironia: há fogo que queima o palco errado, e há fogo que vira fogueira de João sem Terra. A diferença está em quem decide atear.

            “O palhaço ri dali, o povo chora daqui, e o show não para.”

            O palhaço pode ser o poder, a mídia, o influenciador que fatura com a desgraça alheia. O povo chora, mas o espetáculo continua porque o circo não tem intervalo.

            Guy Debord, profeta da sociedade do espetáculo, descreveu exatamente isso: a vida real sendo substituída por sua representação alienada. E ainda assim, Rita insiste: o show não para. Resta a cada um escolher de que lado da lona está.

            “E apesar dos pesares do mundo, vou segurar essa barra.” 

            Camus, o homem do absurdo, escreveu que é preciso imaginar Sísifo feliz. Rita vai além: ela segura a barra. Não com a gravidade de um mártir, mas com a leveza de quem já entendeu que o mundo é pesado demais para quem não aprendeu a distribuir o peso. Segurar a barra não é vencer. É continuar. É, a cada novo jardim suspenso, abrir as asas outra vez.

            Rita e Lee Marcucci, naquela pequena jornada de poucos anos, deixaram esta canção que é um manual de resistência poética. Os jardins da Babilônia foram suspensos de novo, pela pandemia, pela política, pela falta de chão.

                        Eu, cronista de nervos de aço e saúde de sabugo de milho, resolvo também botar as asas para fora.

             Não porque seja forte.

            Porque aprendi, com aqueles dois andarilhos do rock brasileiro, que o único jeito de não ficar por baixo é voar por cima do deserto.

            E se as asas doerem, que doam.

            O show, meu caro, não para.

            E enquanto houver um palhaço rindo e um povo chorando, eu cantarei esta crônica em voz alta, para que algum desavisado ainda pense que jardins suspensos podem, um dia, reflorescer no ar.

(*) Assista o clip no YouTube:

 
 
 

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