ENTRE A MASMORRA E A FOGUEIRA
- Carlos A. Buckmann
- 24 de fev.
- 6 min de leitura

ENTRE A MASMORRA E A FOGUEIRA
O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia um refúgio para almas que o tempo não conseguiu apagar. As mesas de madeira, gastas e lisas pelas ideias que ali se derramaram, sustinham pequenas velas, cujas chamas tremiam ao ritmo da respiração dos presentes, como se também elas fossem almas penadas. As cadeiras, de espaldar alto e estofo puído, rangiam em protesto cada vez que alguém se acomodava, mas era um protesto antigo, desses que já não esperam resposta. Pelas janelas, a cidade lá fora era apenas um borrão de luzes distantes, como se o mundo real tivesse resolvido dar uma trégua.
O aroma do café misturava-se com o cheiro de livros antigos e com um ligeiro odor de incenso, vestígio de algum frequentador que talvez rezasse a deuses esquecidos. Havia novos personagens na noite: eram, um copista de mosteiros, que passava os dedos pelas páginas como se lesse em braile; uma mulher que vendia ervas e falava sozinha sobre propriedades curativas; e um rapaz que dizia ser astrólogo, mas não sabia prever o próprio futuro. O velho anarquista, como sempre, lia Proudhon, mas de vez em quando erguia os olhos como se esperasse que a revolução chegasse pelo Café.
Na vitrola, misteriosamente um som de música medieval, talvez um moteto de Palestrina, com as suas vozes que se entrelaçavam como preces e heresias. Mas, por vezes, entre uma faixa e outra, ouvia-se o som distante de uma saltarello, como se a música também quisesse lembrar que, antes da Inquisição, houve dança.
A porta abriu com um ruido de chamas crepitando e entrou Giordano Bruno. Tinha o olhar incendiário, capa negra já gasta, andar de quem não pede licença para existir. Trazia um livro debaixo do braço, "A Expulsão da Besta Triunfante", pensei, e um sorriso irónico que parecia dizer: "Queimai-me, se puderdes; as cinzas também são sementes”. Sentou-se à mesa junto à estante de filosofia e pediu um vinho tinto. "Da Campânia, se possível", disse, com aquele sotaque napolitano que ainda trazia o sol do Sul.
Minutos depois, com som de porta de masmorra se abrindo materializa-se Tomás Campanella. Expressão cansada, mas teimosa, hábito dominicano já remendado, ar de quem passou vinte e sete anos em masmorras e ainda assim sonha com cidades ideais. Trazia um manuscrito, "A Cidade do Sol", adivinhei, e sentou-se na mesma mesa de Bruno, após um breve pedido de licença.
“O lugar está ocupado?” perguntou, com a cortesia de quem aprendeu que a humildade é a armadura dos fortes.
“Podemos partilhá-lo, respondeu Bruno, indicando a cadeira vazia. Dois filhos da mesma terra, perseguidos pela mesma fé, não devem sentar-se de costas voltadas para o universo”
Campanella sentou-se, colocou o manuscrito sobre a mesa e pediu um chá de ervas. "Qualquer uma, desde que acalme os nervos", disse, com um sorriso que era quase uma cicatriz.
O moteto de Palestrina, entretanto, parecia pairar sobre eles como uma bênção irônica.
“Giordano Bruno, disse Campanella, após o primeiro gole. O homem que viu o infinito e ousou dizê-lo. Li os seus diálogos italianos em Nápoles, antes que me levassem para as masmorras. ‘A Ceia das Cinzas’, ‘Sobre o Infinito Universo e Mundos’... O senhor abriu uma porta que eu mal ousava sonhar.”
“Abri uma porta, sim, respondeu Bruno, acariciando o livro. E por essa porta entrei eu próprio para o fogo. Roma não perdoa quem lhe abre portas; prefere fechá-los com pregos. O senhor teve mais sorte, Campanella. Vinte e sete anos de prisão, mas saiu com vida.”
“Sorte? Campanella ergueu a sobrancelha. Vinte e sete anos a ver o sol pelas frestas, a escrever com carvão nas paredes, a sonhar com uma cidade que só existe na minha cabeça. Isso não é sorte, é sobrevivência. O senhor, Bruno, escolheu o martírio. Eu escolhi a astúcia.
Bruno riu, uma risada curta, quase metálica.
“Astúcia. O senhor chama-lhe astúcia. Eu chamo-lhe pacto com o tempo. Recantaram, não foi? Para salvar a pele, disseram o que eles queriam ouvir. Eu não podia. Quando me mostraram o crucifixo, na véspera da fogueira, disse-lhes: ‘Talvez tremam mais vós ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la’."
“Eu sei. Campanella baixou os olhos. Eu também tive o meu momento. Em 1599, quando conspirei contra os espanhóis para instaurar uma república teocrática, acreditei que a ação era possível. Deram-me tortura, cadeia perpétua, esquecimento. Aprendi que há causas que precisam de tempo.
O silêncio que se seguiu era denso de reconhecimento mútuo. Dois homens, duas estratégias, um destino comum: a perseguição. Aproximei-me para servir mais vinho a Bruno e mais chá a Campanella. Ambos agradeceram com a cortesia de quem sabe que cada gesto pode ser o último.
“Fale-me do seu infinito, pediu Campanella. Dizem que o senhor afirmou que o universo é infinito, povoado de inúmeros mundos, que Deus não poderia ter criado um cosmos finito porque a causa infinita só pode ter efeito infinito.”
“Disse, sim. E digo agora: o universo é todo ele vivo, homogéneo, sem hierarquias. Não há centro, não há periferia. A Terra não está no meio, nem o Sol, nem nada. Tudo é centro, ou nada é. A velha cosmologia medieval, com as suas esferas concêntricas e os seus anjos a empurrar planetas, é uma fantasia de teólogos que nunca olharam para o céu.
Campanella bebericou o chá, lentamente.
“O senhor destrói a hierarquia ontológica, a cadeia do ser, a distinção entre céu e terra. Mas então, Bruno, onde fica Deus? Se tudo é divino, nada é divino. Se a natureza é infinita, onde está o transcendente?”
“Deus está em tudo, Campanella. Não num céu separado, não num trono de nuvens. Está na matéria, no movimento, na vicissitude das coisas. A minha filosofia é a da imanência. Deus é a alma do mundo, a luz que ilumina todas as coisas sem estar em nenhuma.”
O moteto de Palestrina deu lugar a uma saltarello, mais terrena, mais dançável. A música parecia querer lembrar-lhes que, apesar de tudo, houve um tempo em que se dançava.
“E o senhor, Campanella, continuou Bruno, o que escreve nesse manuscrito que tanto protege?”
“É o meu sonho, respondeu Campanella, acariciando as páginas. A Cidade do Sol. Uma sociedade onde tudo é comum, onde os homens vivem segundo a lei natural, onde a sabedoria governa e o trabalho é honra. Escrevi-a na prisão, alimentando-me de sonhos quando me faltava pão.”
“Uma utopia, Bruno sorriu, um sorriso que era quase piedade. O senhor acredita mesmo que os homens podem viver em harmonia? Eu vi a besta triunfante, vi a ignorância coroada, vi a estupidez sentada no trono. A humanidade não quer ser salva; quer ser enganada.
“Por isso é preciso educá-la, replicou Campanella, com uma centelha nos olhos. Na minha Cidade, as crianças aprendem observando, tocando, sentindo. O saber é mostrado nas paredes, nos jogos, nas festas. A filosofia não é para poucos; é para todos. O senhor, Bruno, escreveu ‘A Expulsão da Besta Triunfante’ para reformar os valores celestes, para mostrar que até os deuses precisam de mudar. Não é também uma utopia?”
Bruno ficou em silêncio por um momento.
“Talvez seja. Mas a minha utopia é negativa: tirai a besta, e o que sobra? O vazio, o nada, a possibilidade. A vossa é positiva: construí a cidade, e o que tendes? Uma prisão dourada. O senhor fala em comunidade de bens, em teocracia universal, em submissão à lei natural. Isso não é liberdade, Campanella, é outra corrente.”
O diálogo alongou-se pela noite dentro. Falaram das suas obras: Bruno explicou como a "Cabala do Cavalo Pégaso" era uma sátira à ignorância vestida de sabedoria; Campanella falou da "Metafísica" em dezoito livros, onde expôs as três primalidades do ser, potência, saber e amor e como todas as coisas, mesmo Deus, participam delas. Falaram das repercussões: Bruno, da indiferença dos académicos de Oxford, que o vaiaram quando tentou explicar a rotação da Terra; Campanella, da acusação de heresia e magia, da defesa que fez de Galileu, mostrando que a Bíblia não deve esclarecer a física, mas a física a Bíblia.
A noite avançava e os outros clientes iam saindo. O copista de mosteiros fechou o seu livro e despediu-se com um aceno; a mulher das ervas recolheu os seus ramos murmurando orações pagãs; o astrólogo saiu a olhar para o céu, como se procurasse uma estrela que lhe dissesse o futuro. Só eles ficaram, os dois gigantes, na mesa junto à estante.
A madrugada aproximava-se quando se levantaram. Bruno deixou sobre a mesa uma pequena lente, dessas que usava para observar o céu, ou talvez para ler letras miúdas. Campanella deixou um raminho de oliveira, desses que os prisioneiros cultivavam nas frestas das celas. Despediram-se com um abraço longo. Dois homens que sabiam que, no dia seguinte, um voltaria para as chamas e o outro para as masmorras, mas que, naquela noite, foram apenas irmãos. Um viu o infinito e morreu por ele; o outro sonhou a cidade perfeita e sobreviveu para a escrever. Ambos souberam que o pensamento é o único lugar onde a Inquisição não entra, mesmo quando entra.
As lições que deixaram para a história são simples e terríveis: que a verdade não se negocia, mesmo quando a pagamos com a vida; que o sonho não se abandona, mesmo quando a realidade o desmente; que a liberdade não se pede, conquista-se nas ideias, nas palavras, nas fogueiras que viram cinzas e nas cinzas que viram sementes.
No meu livro de guardanapos, escrevi com minha caneta de tinta invisível, que só os de coração puro conseguem ler:
"Talvez tremam mais vós ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la." (Giordano Bruno – Véspera da fogueira – 1600)




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