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DEVANEIOS À BEIRA DO CAMINHO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

DEVANEIOS À BEIRA DO CAMINHO

            Imagino-me a caminhar ao lado de Jean-Jacques Rousseau, não pelas ruas empoeiradas da Paris de seu tempo, mas por uma vereda estreita que serpenteia entre álamos e bétulas, à beira de um lago cujas águas refletem o céu de outono.

            Ele caminha devagar, cabeça baixa, por vezes colhendo uma folha ou observando o voo de um pássaro. Seu rosto grave carrega as marcas da perseguição que sofreu, mas seus olhos, quando se erguem para a paisagem, brilham com uma serenidade quase infantil.

            É assim que o vejo, em meu devaneio de leitor: não o filósofo das polêmicas, mas o homem que encontrou no silêncio da natureza o único consolo para as injustiças humanas.

            “Senhor Rousseau, digo eu, quebrando o ritmo dos passos, li seus ‘Devaneios’ e fui tocado especialmente pelo quinto passeio, aquele em que descreve sua permanência na ilha de Saint-Pierre. O senhor escreve que a felicidade perfeita, aquela que não deixa nenhum vazio a lamentar, é a que experimentamos quando, deitado num barco à deriva ou sentado à margem do lago, deixamos o pensamento flutuar sem amarras. ‘Tudo está presente, nada falta ao presente’, afirma. Mas permita-me perguntar: essa alma que se abandona ao devaneio não trai aquele mesmo homem que, décadas antes, escreveu “O Contrato Social”? Como conciliar o cidadão que nos legou a ideia da vontade geral com o caminhante que foge da sociedade como de uma peste?”

            Rousseau interrompe a marcha, apoia-se em seu bastão e me olha com uma curiosidade que não é isenta de melancolia.

            “Meu amigo, responde ele, após um suspiro, o senhor toca na ferida que nunca cicatrizou. Mas o mal-entendido nasce de confundir o remédio com a doença. Escrevi ‘O Contrato Social’ para mostrar que, entre os homens, a liberdade só pode ser conquistada por meio da lei que cada um dá a si mesmo.”

            “Como assim? – indaguei.

            “A vontade geral não é a soma das vontades particulares, como Voltaire gostava de ironizar, mas aquela aspiração ao bem comum que reside mesmo no coração do homem natural, antes que a vaidade e a propriedade o corrompessem. No entanto, quando vi que as sociedades reais, inclusive a que me perseguiu, que queimou ‘Emílio’ e me mandou para o exílio, haviam se afastado tanto desse ideal que mais valia o silêncio da floresta do que a mentira dos salões, então retirei-me. Não por misantropia, mas por fidelidade à minha própria natureza.”

            Aproveito a deixa e insisto:

            “Mas o senhor sabe que Hobbes diria: ‘o homem é o lobo do homem’ E que, sem o contrato, voltamos à guerra de todos contra todos. O senhor, ao exaltar a solidão, não estaria oferecendo aversão à política?”

            Rousseau sorri com amargura.

            “Hobbes, pobre homem, confundiu o homem natural com o homem já corrompido pelas primeiras sociedades. O verdadeiro estado de natureza, aquele que descrevi no ‘Discurso sobre a origem da desigualdade’, não conhecia a guerra, pois o homem selvagem vivia na piedade e no amor-próprio, não no egoísmo. A guerra nasceu com a propriedade, com o primeiro que cercou um terreno e disse ‘isto é meu’. Meu contrato social é uma tentativa de refundar a associação política sobre bases que não destruam a liberdade. Mas quando vejo que até as revoluções se perdem na tirania, prefiro recolher-me. O devaneio não é a negação do contrato; é o seu lamento.

            Nesse momento, lembro de Kant, que se disse “despertado do sono dogmático” pela leitura de Rousseau.

            Pergunto:

            “O senhor sabe que Kant, em Königsberg, jamais perdia seu passeio diário, mas o fazia com tanta regularidade que os vizinhos acertavam seus relógios por ele? E que, no entanto, ele o admirava a ponto de pendurar seu retrato na sala de estudos? Kant defendia que o direito e a política deviam guiar-se pela razão prática, não pelos sentimentos. O senhor não acha que seu apelo à interioridade solitária é um convite ao irracionalismo?”

            Rousseau deixa o bastão de lado e se senta numa pedra coberta de musgo. Faz-me sinal para que o imite.

            “Kant é um grande homem, mas está enganado se pensa que a razão basta. O coração tem razões que a razão não conhece, já diria Pascal. Quando caminho sozinho e me entrego ao devaneio, não fujo do pensamento; ao contrário, é então que penso com mais clareza, porque penso sem as paixões mesquinhas da competição social. Meu ‘Contrato Social’ é um livro de razão, mas sua alma é a boa vontade. Ora, onde se aprende a boa vontade senão no recolhimento em que ouvimos a nós mesmos?”

            Fico em silêncio, enquanto a tarde cai sobre o lago. Mas não posso deixar de notar uma contradição que o próprio Rousseau talvez nunca tenha resolvido: se o devaneio solitário é o único estado de felicidade pura, para que escrever livros sobre política? Para que tentar convencer os outros, se a verdade só se revela a sós? O filósofo que condenou o teatro e as artes por corromperem os costumes, no fim, oferece ao mundo uma obra-prima da literatura e, mais grave, uma teoria da democracia que inspirará os jacobinos e, depois, os revolucionários de todos os matizes. Como se o caminhante solitário, ao descer da montanha, não pudesse evitar de lançar sua tocha ao vale.

            Levanto-me e despeço-me de Rousseau com uma reverência. Ele já não me vê; seus olhos estão fixos nas águas, onde um cisne desenha círculos perfeitos.

            Caminho de volta sozinho, e penso: talvez o maior ensinamento dos “Devaneios” seja justamente essa tensão insolúvel.

            Somos animais políticos, como queria Aristóteles, mas também somos seres que suspiraram pela ilha deserta.

            Rousseau nos ensina que o contrato social é necessário, sem ele, a injustiça não tem remédio. Mas também nos ensina, com sua vida e sua obra, que nenhum contrato esgota a alma.

            Por isso, ao fechar o livro, não ouso escolher entre o cidadão e o caminhante. Prefiro, como ele, errar à beira do caminho, levando na bagagem uma pergunta que nunca se cala: será que podemos construir a cidade justa sem perder o gosto pelo devaneio?

            E se a resposta for não, então que ao menos o lamento seja tão belo quanto estas páginas finais de Rousseau, que começam na solidão e terminam, como tudo que é humano, no silêncio do infinito.

 
 
 

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