DE VOLTA AO CAFÉ ENTRE FLUXOS
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 5 min de leitura

A NOITE AZUL EM QUE A PALAVRA SE FEZ SILÊNCIO
O Café Entre Fluxos, naquela noite, vestia-se de azul.
Não um azul qualquer, desses que se compram em latas de tinta, mas um azul nascido da lua iluminava tudo, como se o dia se recusasse a morrer e a noite aceitasse o desafio.
As velas sobre as mesas tremiam em tons de cobalto, e as sombras que projetavam nas paredes pareciam dançar uma coreografia inventada por astrónomos loucos.
As mesas de madeira clara, notei pela primeira vez, eram claras, não escuras como sempre imaginei, sustentavam jarros de vidro com flores secas, dessas que guardam a memória do verão mesmo no inverno.
As cadeiras, de vime pintado de branco, rangiam em tons mais altos, quase agudos, como se também elas quisessem cantar. Pelas janelas de vidro grosso, a cidade lá fora era um borrão de luzes bruxuleantes, cada uma piscando num ritmo próprio, como estrelas que aprenderam a piscar fora de tempo.
Os frequentadores daquela noite eram poucos, mas escolhidos. Um velho tradutor de poemas, desses que passam a vida a procurar a palavra exata para uma palavra inexata, bebericava chá verde e anotava algo num caderno. Uma pianista de dedos compridos folheava uma partitura de Erik Satie e movia os lábios como quem ensaia uma música que só ela ouvia. Um poeta anônimo, desses que publicam em revistas literárias de tiragem de cem exemplares, escrevia um verso e depois o rasurava, num ritual que se repetia há horas.
Na vitrola, alguém colocara as “Gymnopédies” de Satie. Aquelas notas que não começam nem terminam, que flutuam como folhas em queda lenta, que parecem perguntar e nunca responder. Era a música perfeita para a noite azul.
Foi então que a porta se abriu e duas figuras entraram como quem entra num sonho. Não caminhavam, deslizavam. Não olhavam, viam.
O primeiro, alto, magro, com um bigode que parecia desenhado a carvão, trazia nos olhos a distância de quem já habitou todos os desertos. Rainer Maria Rilke. O poeta que escreveu sobre a solidão como se ela fosse uma casa a ser decorada com paciência.
O segundo, menor, de cabelos grisalhos e olhar de monge zen que também foi pecador, trazia nas mãos um livro, “Demian”, talvez ou “Siddhartha”. Hermann Hesse. O escritor que trocou a Europa pela Índia sem sair do seu quarto.
Escolheram a mesa junto à janela, a que tem a vista mais vazia.
Aproximei-me.
“Dois cafés?” perguntei.
“Não, respondeu Rilke. Chá. O café é para as manhãs, para as certezas. A noite azul pede chá e dúvida.”
“Chá de camomila, acrescentou Hesse, com um sorriso que era quase uma prece. Para que a alma se acalme antes de falar.”
Servi-os em silêncio. A “Gymnopédies” número um continuava, lenta e circular.
“Rilke, disse Hesse, após o primeiro gole, você escreveu que a beleza é apenas o início do terrível. Eu nunca esqueci essa frase. Ela me acompanha como uma cicatriz.”
“É verdade, respondeu Rilke, com a voz baixa de quem fala para dentro. Escrevi isso nas ‘Elegias de Duino’. A beleza não é consolo, é desafio. Ela nos mostra o que somos e o que nunca ousaremos ser. Por isso assusta.”
Hesse acariciou a xícara com os dedos.
“Eu, quando escrevi ‘O Lobo da Estepe’, quis mostrar esse terror. O homem que se sente dividido entre a alma e o instinto, entre a cidade e o deserto, entre a luz e a sombra. Você também viveu essa divisão?”
“Vivi, sim. Como todo aquele que escreve. O poeta é um ser dividido: quer ser anjo e é apenas homem. Quer cantar o infinito e só tem palavras finitas. Passei dez anos a escrever as ‘Elegias’, e cada verso era uma batalha contra o silêncio.”
O poeta anônimo, na mesa ao lado, ergueu os olhos do seu caderno. Estava ouvindo.
“Hesse, continuou Rilke, você fugiu da Alemanha. Foi para a Suíça, para a Itália, para o Oriente. Eu também fugi. Paris, Capri, a Suíça. Mas a solidão, essa, não se foge. Ela está dentro.”
“Não se foge, não, concordou Hesse. Aprendi isso em ‘Siddhartha’. O rio ensina que não se pode fugir de si mesmo. O que se pode fazer é aceitar. Aceitar a solidão como condição, não como castigo.”
Rilke ergueu a xícara num gesto lento.
Você escreveu sobre a busca. Eu escrevi sobre a espera. Você pôs os seus personagens a caminhar; eu pus os meus a escutar. Talvez sejam a mesma coisa: caminhar é escutar o passo. Escutar é caminhar para dentro.”
A pianista, que até então folheava a partitura, começou a tocar baixinho, com um dedo apenas, a melodia que lia. Era Satie, outra vez,, mas agora mais lenta, mais íntima.
“E a guerra? perguntou Hesse, após um longo silêncio. Como é que se escreve depois da guerra? Eu perdi tudo, duas vezes. A Alemanha, a casa, os livros. Recomecei em Montagnola, num casebre, com uma máquina de escrever e a certeza de que as palavras são o único país que não se perde.”
“A guerra, Rilke suspirou, matou-me sem me matar. Servi no exército austríaco, burocracia, papéis. Mas vi os outros partirem. Vi a Europa desfazer-se como um castelo de cartas. Depois, só me restou escrever. Não sobre a guerra, mas sobre o que a guerra destrói: a possibilidade do amor.”
Hesse tocou na mão de Rilke.
“As ‘Cartas a um Jovem Poeta’. Eu li-as como se fossem para mim. ‘Não destrua o deserto dentro de si’, dizia você. Eu aprendi a amar o meu deserto. Ele é onde tudo cresce devagar.”
O velho tradutor, na mesa de canto, fechou o caderno. Tinha os olhos brilhantes.
“Fale-me de você, pediu Rilke. Hesse, você escreveu sobre a infância, sobre a rebeldia, sobre a busca espiritual. Como é que um homem que viveu duas guerras ainda acredita na alma?”
“Não acredito, Rilke. Sei. A alma não é matéria de crença, é matéria de experiência. Quem já se sentiu perdido no escuro e encontrou uma luz dentro de si, esse sabe. Escrevi ‘Demian’ para dizer: ‘O pássaro luta para sair do ovo. O ovo é o mundo. Quem quer nascer, tem de destruir um mundo’."
Rilke sorriu, um sorriso raro, como um sol em dia de chuva.
“Destruir um mundo para nascer. É isso que o poeta faz, não é? Mata a língua comum para que nasça a língua secreta. Mata o tempo para que nasça a eternidade.”
A pianista, agora, tocava com as duas mãos. Satie, sempre Satie, mas com um acréscimo de melancolia.
O diálogo alongou-se pela noite azul. Falaram de projetos: Rilke, da tradução de ‘Sonetos de Petrarca’ que nunca concluiu; Hesse, do seu interesse pela pintura, pelos desenhos que fazia para acompanhar os poemas.
Falaram da recepção das suas obras: Rilke, do sucesso tardio, das ‘Elegias que só foram compreendidas depois da sua morte; Hesse, do Prêmio Nobel que lhe escapou por tanto tempo e finalmente chegou, mas que ele quase recusou, porque ‘um escritor não escreve para prêmios, escreve para almas’."
Quando a madrugada começou a despontar, não em tons de rosa, mas no mesmo azul apenas mais claro, levantaram-se. Rilke deixou sobre a mesa uma rosa, a rosa de que falou nas “Elegias”, a rosa que é pura contradição. Hesse deixou uma pena de escrever, dessas antigas, com o bico gasto de tanto rabiscar a verdade.
Despediram-se com um olhar. Não precisavam de palavras. Dois homens que souberam que a solidão pode ser partilhada sem ser diminuída. E desapareceram na noite que já não era noite, levando consigo a música e o silêncio.
No meu livro de guardanapos, onde anoto mais do que receitas de café, escrevi a frase que Rilke murmurou ao sair, quase como um sussurro de um segredo:
"Talvez toda a nossa angústia seja apenas a angústia de não estarmos suficientemente sós."




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