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DANÇAR COM NÚMEROS

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

DANÇAR COM NÚMEROS

            Navegando pelos meandros da mente humana, buscando compreender a natureza do pensamento e da criação artística, meu pensamento, embebido na busca do equilíbrio entre o rigor do intelecto e a fluidez do espírito provoca uma reflexão sobre a complexa dança da existência moderna.

            Paul Valéry nos deixou uma frase, aparentemente simples, mas devastadora em sua profundidade: 

            “Um homem de negócios é um cruzamento entre um dançarino e uma máquina de calcular.”

            Paul Valéry (1871–1945), francês de Sète, não foi apenas um poeta simbolista, foi um arquiteto do pensamento.   Valéry buscava a precisão do raciocínio aliada à graça da intuição. 

            Sua obra-prima, “La Jeune Parque”, é um poema metafísico onde a alma se debate entre dúvida e certeza, caos e ordem.  Mas foram seus “Cahiers”, mais de 25.000 páginas de anotações filosóficas, que revelaram seu verdadeiro legado:  a obsessão com a dialética entre lógica e criação. 

            Para Valéry, o espírito humano não é máquina nem musa, é ambos. Em A “Crise do Espírito”, escreveu: 

            “O pensamento é um diálogo entre o que sabemos e o que ignoramos.” 

            É nesse diálogo que reside a genialidade do homem de negócios: não basta calcular, é preciso dançar.  Não basta prever, é preciso improvisar.  Não basta ser eficiente, é preciso ser vivo. 

            Valéry não estava brincando com metáforas.  Sua frase é um manifesto ontológico para quem ousa empreender. 

            A máquina de calcular representa a estrutura:  - O estoque que gira 6,2 vezes ao ano, não 3,1; - O fluxo de caixa previsto com rigor; - A análise de dados que antecipa tendências.  É a parte do negócio que não pode falhar, porque, como disse Peter Drucker, “se você não pode medir, não pode gerenciar.” 

O dançarino, porém, é a alma:  - O farmacêutico que, ao entregar o remédio, pergunta: "Como está o tratamento?”; - A atendente que, ao ver o cliente hesitar, sugere um serviço complementar com delicadeza; - O dono que, em vez de cortar custos cegamente, reinventa a loja como centro de saúde comunitário. 

            É a parte que não está no Excel, mas que faz o cliente voltar.  Ignorar um dos lados é suicídio.

             - A farmácia que é só máquina vira um depósito com caixa registradora: - Preço baixo, mas ninguém me olha nos olhos. 

            - A que é só dança vira um sonho sem chão:  Atendimento lindo, mas o estoque vira poeira. 

            Como Nietzsche já alertara, citando os deuses gregos: “O espírito apolíneo (ordem) sem o dionisíaco (caos criativo) é estéril. O dionisíaco sem o apolíneo é destruição.” 

            O homem de negócios moderno deve ser, como Valéry, ambos.

            Na Vida Pessoal: O Eu como Campo de Batalha.

            Quantos de nós vivem como máquinas?  Acordamos no mesmo horário, seguimos rotinas, repetimos frases, evitamos riscos, tudo para não sentir o vazio. 

            Mas, como Martin Heidegger observou, “a autenticidade surge quando confrontamos o abismo da possibilidade.” 

            Dançar é ousar mudar de carreira, pedir desculpas, dizer não. 

            Calcular é planejar cada passo sem cair no precipício. 

            Quem só calcula vira escravo da segurança. Quem só dança vira refém do acaso. 

            A sociedade contemporânea está dividida entre “tecno-burocratas” (que acreditam que algoritmos resolverão tudo) e “românticos anárquicos” (que confiam apenas no coração). 

            Valéry riria de ambos.  Para ele, como escreveu em “A Conquista de Todas as Forças”: “A verdadeira revolução não está na máquina nem na multidão, está na síntese entre eficiência e humanidade.” 

            Uma farmácia que usa IA para prever demanda e treina sua equipe para escuta ativa não é utópica, é necessária.

            W. Edwards Deming, pai da qualidade total, resumiu:  "14 pontos para a gestão, mas o 15º é: lembre-se de que você está lidando com seres humanos.” 

            Heráclito deixou escrito: “O caminho para cima e para baixo é um só.”    A lógica e a intuição não são opostas — são faces da mesma moeda. 

            Por sua vez, Carl Jung afirmou: “Na psicologia dos arquétipos, o pensamento (máquina) e o sentimento (dança) são funções complementares da mente.”  Ignorar uma leva à neurose coletiva, ou à falência empresarial. 

Todos concordam:  quem não dança, vira estátua.  Quem não calcula, vira folclore.

            Quantos donos de farmácia se orgulham de serem “muito analíticos”, enquanto sua equipe se desgasta em tarefas sem sentido e os clientes fogem para apps que entregam em 30 minutos? 

            Quantos acreditam que “ser humano” basta, sem perceber que sua loja afunda por falta de gestão básica de estoque? 

            A verdade é cruel: você não é um visionário, é um desorganizado com sorte.  Ou não é um profissional, é um burocrata sem alma.

            Valéry não estava brincando.  Sua frase é um diagnóstico:  se você é só máquina, está morto.  Se é só dança, está delirando. 

            Então, pare de escolher entre eficiência e empatia.  Seja os dois. 

            Treine sua equipe não apenas em produtos, mas em presença.  Use dados não para substituir o julgamento, mas para iluminá-lo.  Planeje cada movimento, mas deixe espaço para o imprevisto criativo. 

            Porque, no fim, não é o Excel que fideliza. Não é o sorriso que equilibra o caixa.  É a síntese. 

            E se hoje você lê esta crônica e pensa:  Isso é fácil de dizer, mas difícil de fazer, então você ainda não entendeu.

            Não é difícil.  É necessário.  Calcule.  Dance.  E descubra que, como disse Valéry, o homem de negócios não nasce, constrói-se, passo a passo, número por número, até que a precisão e a graça se tornem uma só coisa.  Porque no palco do varejo, só há lugar para quem sabe contar e dançar.

 
 
 

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