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CUIDA DE TI

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

CUIDA DE TI           

            A frase no pórtico não era um conselho. Era uma ameaça disfarçada de gentileza. “Epiméleia heautoû” (cuida de ti).

            Os peregrinos subiam a montanha sagrada com o peito cheio de perguntas sobre o futuro, sobre guerras, sobre amores, sobre a morte. Queriam decifrar os enigmas da Pitonisa, aquela mulher sentada sobre a trípode, respirando os vapores da terra, possuída pelo deus.

            E eu me pergunto agora: quantos deles, ao lerem aquelas palavras no mármore, pararam de fato? Ou seguiram em frente, achando que o oráculo era um fim, quando na verdade era apenas um espelho?

            A Pitonisa de Delfos não previa o futuro. Isso é o que menos importa na história. Ela devolvia à pergunta a forma de um enigma para que o homem, ao tentar decifrá-lo, acabasse por decifrar a si mesmo.

             “Conhece-te a ti mesmo” era a outra máxima socrática. Mas os antigos sabiam que não se chega ao conhecimento sem antes passar pelo cuidado. Você não conhece a ferida se não a limpou. Não conhece a alma se não a tratou como um jardim que precisa de água, de poda, de paciência.

            Michel Foucault, em um curso que intitulou “A Hermenêutica do Sujeito”, escavou essa camada esquecida. Mostrou que a filosofia grega não era uma disciplina acadêmica, mas um conjunto de exercícios espirituais. O cuidado de si, para Foucault, era uma atitude, uma forma de olhar para o mundo e para dentro.

            Lembro de um fato pequeno, ocorrido na semana passada. Um amigo, advogado brilhante, que passou anos construindo um império de contratos e vitórias, veio me contar que havia sido traído pela sócia em quem mais confiava.

            Ele não sabia o que fazer. Eu lhe perguntei: “Quando foi a última vez que você cuidou de você?” Ele riu. Mas eu insisti: “Não estou falando de massagem ou de férias. Estou falando de sentar-se consigo mesmo e perguntar: onde foi que eu negligenciei minha própria existência a ponto de terceirizá-la para quem não tinha compromisso com ela?”

            Ele ficou em silêncio. Depois de um tempo, disse: “Nunca fiz isso”.

            Apenas um fato. Transformamos o “cuida de ti” em uma frase de bazar. Virou aromaterapia, lista de afazeres, produtividade com aura de espiritualidade.

            Mas o cuidado de si que os gregos praticavam era mais exigente. Era um exercício de descolonização interior. Significava parar de se definir pelo que os outros esperam, pelo que o mercado valida, pelo que a tradição impõe sem que você a tenha escolhido. Significava, como escreveu Pierre Hadot, “filosofar como modo de vida”, e não como retórica para impressionar em jantares.

            Sabemos tudo sobre os outros, seus gostos, suas viagens, suas opiniões, suas mentiras sociais, e nada sobre os limites de nossa própria resistência.

            Essa ignorância de si se projeta no mundo.

            Um povo que não se cuida permite que cuidem dele como se cuida de um rebanho: com cercas e data de abate.

            O paradoxo grego permanece intacto. O templo de Apolo, no alto, prometia respostas. Mas quem subia a encosta e ignorava as palavras no pórtico estava apenas fazendo turismo filosófico. Voltava para casa com um enigma na língua e a alma intocada.

            Nos tempos de Delfos, o peregrino, antes de entrar no santuário, banhava-se nas águas da fonte Castália. Não era um ritual de higiene. Era a metáfora de que, para perguntar ao deus, era preciso primeiro limpar a própria vista.

            Nós, que vivemos na era das respostas automáticas, esquecemos a água. Queremos o oráculo sem o banho.

            E assim repetimos, em escala planetária, o erro de Édipo: deciframos o enigma da Esfinge, mas não sabíamos quem éramos. E por não sabermos, cegamos.

            Cuidar de ti. Eis a única profecia que não falha.

            Quando um homem cuida de si, ele não se torna egoísta. Torna-se, enfim, capaz de cuidar do mundo.

            Porque não se dá ao mundo aquilo que não se tem.

            E se não temos a nós mesmos, o que temos?

 
 
 

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