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CRÔNICA DE UMA LEITURA INQUIETA

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de fev.
  • 4 min de leitura

CRÔNICA DE UMA LEITURA INQUIETA

            Há dias em que saio à rua e vejo, nos rostos que cruzam meu caminho, não exatamente a expressão clássica da alienação industrial que os teóricos da Escola de Frankfurt tão bem descreveram, aquela opacidade do trabalhador exaurido pela máquina, mas algo diverso, mais sutil e, por isso mesmo, mais alarmante.

            Vejo olhares que parecem carregar uma autocobrança silenciosa, uma culpa difusa por não renderem o suficiente, por não serem suficientemente felizes, por não otimizarem cada segundo da existência.

            Foi precisamente esse mal-estar difuso que me levou, há algumas semanas, a revisitar um pequeno grande livro que insiste em martelar meus pensamentos: Sociedade do Cansaço, do filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han.

            Inicialmente, resisti ao sucesso editorial do autor. Desconfiava desses ensaios delgados que cabem no bolso do casaco e prometem decifrar o espírito do tempo em menos de cento e cinquenta páginas. Mas foi precisamente essa densidade concentrada, esse estilo aforismático que caminha na corda bamba entre a fenomenologia e a poesia, que me capturou. Han escreve como quem cinzela sentenças: cada parágrafo parece um fragmento de uma constelação filosófica maior, e é preciso lê-lo com a lentidão que o próprio autor reivindica como antídoto à aceleração contemporânea.

            A tese central de Han é, à primeira vista, desconcertante. Ele propõe que a sociedade pós-moderna teria superado o paradigma da “sociedade disciplinar” tão magistralmente analisado por Michel Foucault, aquela arquitetura do poder que operava por instituições fechadas, proibições, mandamentos e deveres. Já não vivemos, argumenta Han, em um mundo onde o imperativo é "você deve". Nosso regime é outro: é o da positividade, do "você pode". Somos, todos nós, pretensos empreendedores de nós mesmos, artistas da própria vida, sujeitos supostamente liberados das amarras externas.

            Mas eis o paradoxo cruel que Han desnuda com precisão cirúrgica: essa liberdade aparente revelou-se mais tirânica que a antiga sujeição. O sujeito do desempenho, entregue a si mesmo, acredita estar livre, mas na verdade interiorizou a vigilância. Agora, não há mais patrão a temer, pois carregamos o patrão dentro de nós. Exploramo-nos voluntariamente, com a convicção ilusória de que isso é autorrealização. E o resultado dessa autoexploração sem trégua é a “síndrome de burnout”, a depressão, o transtorno de personalidade borderline, patologias que, para Han, não são meros acidentes de percurso, mas a expressão mesma da violência que exercemos contra nós na tentativa de atender a um ideal de performance que nunca se satisfaz.

 

            Lembro-me, ao folhear novamente suas páginas, da passagem em que Han dialoga com Hegel e com o conceito de "dialética do senhor e do escravo". Na leitura “haniana”, o que ocorre hoje é uma inversão perversa: o sujeito do desempenho é simultaneamente senhor e escravo de si mesmo. E, como não há um outro externo contra quem dirigir a revolta, a agressividade volta-se para dentro. "O sujeito do desempenho", escreve Han, "está em guerra consigo mesmo”. E nessa guerra civil interior, o vencido é sempre o mesmo.

            Mas seria reducionismo atribuir a Han uma originalidade absoluta. Sua dívida para com Martin Heidegger é explícita e confessada, aliás, sua tese de doutoramento versou sobre o conceito de afeto (Stimmung) no autor de Ser e Tempo. É de Heidegger que Han herda a atenção ao modo como habitamos o mundo, à tonalidade afetiva que colore nossa existência cotidiana. A diferença é que, onde Heidegger via no tédio profundo a possibilidade de abertura para o ser, Han diagnostica no cansaço excessivo da sociedade contemporânea uma obstrução dessa abertura. Estamos tão exauridos pela pressão performática que já não conseguimos o ócio fecundo, a pausa contemplativa, o "ser-para-a-morte" heideggeriano é substituído por um "ser-para-a-produção" interminável.

            Outro espectro que ronda a filosofia haniana é o de Hannah Arendt, ainda que indiretamente. Quando Han critica a vitória do “animal laborans” sobre o “zoon politikon”, ecoa a preocupação arendtiana com uma sociedade que só conhece o trabalho e o consumo, esquecendo-se da ação política e do discurso. Mas Han acrescenta um elemento novo: o trabalho, hoje, não é mais a atividade penosa que se desejava evitar; ele é travestido de projeto pessoal, de realização, de liberdade. E essa roupagem festiva do trabalho é que o torna tão difícil de combater.

            A filosofia de Han, por vezes, parece descrever um sujeito universal que, suspeito, habita mais confortavelmente os centros europeus do que as periferias do mundo. Ao idealizar a "casa" como espaço de recolhimento e resistência, ele declarou recentemente que "ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência". Han negligencia que para milhões de pessoas, especialmente no Sul global, a casa pode ser o espaço da precariedade máxima, da violência doméstica, da superlotação, da falta de saneamento.

            O filósofo sul-coreano às vezes flutua em um mundo abstrato, onde as condições materiais de existência, a fome, o desemprego estrutural, a ausência de Estado, são suavizadas ou simplesmente ignoradas. Sua "casa" idealizada parece ser aquela do intelectual europeu com estabilidade profissional, não a habitação improvisada na periferia de São Paulo, nas favelas do Rio de Janeiro ou nos bairros periféricos de Porto Alegre. Essa cegueira seletiva não invalida seu diagnóstico, mas certamente o relativiza.

            Feita essa ressalva, que me parece de justiça, volto a recomendar a leitura. Sociedade do Cansaço é livro para ser lido devagar, talvez em voz alta, deixando que suas sentenças encontrem eco em nossa experiência vivida. E, após ele, que o leitor busque “Agonia do Eros”, onde Han aprofunda a tese do desaparecimento do outro em uma sociedade narcísica; “Sociedade da Transparência”, que expõe a tirania da visibilidade total; e “Psicopolítica”, livros que pretendo comentar a seguir, onde enfrenta diretamente as novas tecnologias de poder do capitalismo neoliberal.

            Há quem diga que a filosofia de Han é pessimista demais, que diagnostica sem apresentar saídas. Talvez. Mas, como ele próprio gosta de lembrar, citando Sócrates, o papel do filósofo é ser a mosca que pica o cavalo, incomodar, perturbar, despertar.

            E, numa época que nos quer sonolentos e produtivos, acordar já é, em si, uma forma de resistência.

            Que esta crônica sirva, pois, como picada, aquela capaz de despertar alguns dos rostos sonolentos e cansados que cruzam meu caminho.

            Boa leitura.

 

 
 
 

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