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CRÔNICA DE UM LEITOR INACABADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

CRÔNICA DE UM LEITOR INACABADO

            Reservo-me o direito de não falar sobre o autor.

            Não por desdém. Antes por respeito.

            Aqueles que conhecem a biografia de Paulo Freire já sabem o que eu diria. E os que o abominam sem nunca terem lido uma linha sua, a esses, aconselho apenas uma coisa: leiam. Não precisam ser livros de Freire. Leiam sobre o que quiserem. Mas leiam.

            Depois, se ainda quiserem, leiam a obra que aqui indico.

            Reli o livro outro dia. Pedagogia da Autonomia. Na contracapa, a editora Paz e Terra já nos provoca: “Freire transcende a sala de aula. Nos convida a ser melhores. Mais autônomos. Para construir uma sociedade mais justa, ética, democrática.”

            Palavras bonitas, sim. Mas palavras que doem quando a gente para de verdade.

            O que me incomoda, confesso, é essa coisa chamada analfabetismo funcional.

            Gente que sabe decifrar os sinais. Que passa os olhos sobre as letras. Mas não entende o sentido do que lê. E então acredita em qualquer mentira. Das mais desbaratadas.

            Como crescer como nação assim? Como avançar num mundo que corre em velocidade inimaginável, se a maioria mal sai do lugar?

            Freire dizia algo que guardo comigo: “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou sua construção.”

            Penso nisso toda vez que vejo alguém repetindo uma informação como papagaio. Sem crítica. Sem dúvida. Sem construção alguma.

            O livro ensina, tacitamente, a erradicar esse mal. Mas quem tem olhos para ver?

            Ao longo da leitura, fui instigado a rever minhas próprias crenças. E ele me pegou desprevenido: “Uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas.” Que frase. Que tapa na cara de quem se acha dono da verdade.

            O mestre das palavras nos ínsita a repensar. E repensar dói. Porque significa admitir que talvez estivéssemos errados.

            E sobre nossa finitude, ele nos aconselha a humildade: “Por mais que me desagrade uma pessoa, não posso menosprezá-la com um discurso em que, cheio de mim mesmo, decreto sua incompetência absoluta.”

            Quantas vezes não fiz exatamente isso? Julguei. Decretei. Menosprezei. Cheio de mim.

            O livro é um espelho. E o espelho não mente.

            Pensar. Refletir. Repensar. “Rerefletir”.

            Sobre o que somos. Sobre o quão imperfeitos somos. E continuaremos sendo, se não mudarmos nossa maneira de ser e agir.

            Freire confessa: “Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele.”

            Inacabado. É disso que se trata. Não de chegar lá. Mas de caminhar.

            Você não precisa ser pedagogo. Nem professor. Basta ser humano. Consciente de suas limitações. E querer, como eu, buscar ser melhor a cada dia. Mesmo sabendo que nunca seremos perfeitos.

            Não falei do autor. Não disse onde nasceu, o que sofreu, de onde partiu. Porque isso, quem precisa saber já sabe. E quem o abomina sem conhecer, bem, esses não seriam convencidos por biografia alguma.

            Mas fica aqui minha crítica, que é também um lamento:

            O mesmo analfabetismo funcional que nos faz engolir mentiras é o que nos faz odiar quem não lemos. Julgar quem não estudamos. Condenar quem não escutamos.

            Freire sabia disso.

            Por isso escreveu.

            Por isso insistiu na leitura do mundo antes da palavra.

            Se você chegou até aqui, leia o livro. Não por mim. Não por ele. Por você mesmo.

         E quando terminar, talvez entenda por que me reservei o direito de não falar do homem.

            Suas palavras já falam.

            Resta saber se temos ouvidos para ouvi-las.

 
 
 

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