CONSOLAÇÕES
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 5 min de leitura

CONSOLAÇÕES
A filosofia entrou na minha vida como quem abre uma porta e se esquece de fechá-la.
Foi nos corredores úmidos da faculdade de Letras, nos idos de 1970, que encontrei os primeiros “papiros”. Entre uma aula de sintaxe e outra de literatura portuguesa, descobri que os gregos não apenas inventaram o mundo com palavras, mas o sustentaram com perguntas.
Eu, que buscava a beleza, me vi de repente diante do abismo da verdade. Os anos se passaram, a paixão tornou-se ofício silencioso, e a filosofia deixou de ser matéria para tornar-se o chão sob meus pés.
Foi há cerca de vinte anos, numa livraria que já não existe mais, que encontrei “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton.
Confesso que o título me pareceu, num primeiro momento, um tanto presunçoso, como se a filosofia pudesse ser reduzida a um bálsamo, a um lenitivo para as dores cotidianas. Mas bastaram as primeiras páginas para que eu percebesse o equívoco do meu julgamento acadêmico. De Botton não vulgarizava a filosofia; ele a devolvia à sua função primordial: ensinar-nos a viver.
O livro é um gesto de tradução. Não no sentido linguístico, mas no existencial. O autor nos apresenta seis consolações, cada uma ancorada em um filósofo específico, como se fossem remédios preparados por alquimistas da alma.
A primeira, consolação para as frustrações, vem de Sócrates. Aprendemos com ele que a infelicidade muitas vezes nasce da opinião alheia mal digerida. Sócrates nos ensina a arte do escrutínio racional: se algo nos fere, examinemos se a fonte do ferimento tem razão ou apenas aparência. A consolação socrática não é um lenço para enxugar lágrimas, mas um espelho que nos obriga a ver com clareza.
Em seguida, Epicuro nos consola pela falta de dinheiro. Ou melhor, ensina-nos que a pobreza não está na escassez de bens, mas na abundância de desejos mal direcionados. A amizade, a liberdade e a reflexão são os pilares de uma vida suficiente. Li esse capítulo e me lembrei de minha própria juventude, quando a riqueza era medida pelas horas de conversa à luz de um abajur, e não pelo saldo bancário. Aliás, continua sendo assim.
Sêneca aparece para consolar diante das adversidades. A filosofia estoica nos prepara não para um mundo ideal, mas para este mundo de imprevistos e perdas. “A vida nunca é tão feliz quanto a imaginação a concebe”, escreve De Botton, resgatando o velho mestre latino. A consolação aqui é a antecipação serena: não esperar que o universo nos trate com justiça, mas construir dentro de nós uma fortaleza que a sorte não pode sitiar.
Depois, Montaigne nos consola diante das inseguranças do corpo e do desejo, mas a lição é mais ampla. Trata-se da aceitação do que somos, com todas as nossas estranhezas e particularidades.
Montaigne nos liberta da tirania do normal, ensinando que o eu não é uma falha a ser corrigida, mas um território a ser explorado. Foi esse capítulo, recordo, que me fez rir em voz alta, rir de alívio, como quem reconhece um amigo antigo.
Schopenhauer oferece a consolação para os corações partidos. É o mais sombrio dos conselheiros, mas talvez o mais preciso. Ele nos mostra que a dor é inerente à vontade de viver, e que a frustração amorosa não é um erro pessoal, mas uma página da anatomia universal.
Longe de ser pessimista, essa visão nos consola ao nos inserir na grande tragédia coletiva, retirando de nosso sofrimento o caráter de humilhação solitária.
Por fim, Nietzsche nos consola diante das dificuldades. É o mais vibrante dos seis. Ele não nos oferece um refúgio, mas um desafio: crescer com o que nos fere. A famosa máxima “o que não me mata me fortalece” encontra aqui sua explicação mais refinada. Nietzsche nos convida a abandonar a ideia de uma vida sem dor e abraçar a vida que nos faz criar, justamente porque exige de nós superação.
O que esse livro tem de extraordinário, e que justifica seu poder de incentivo, é o fato de não pressupor no leitor nenhum conhecimento prévio.
De Botton não fala para iniciados; fala para seres humanos que sofrem, que amam, que falham. Ele nos lembra que a filosofia, antes de ser uma disciplina universitária, “É” um exercício de vida. Os diálogos de Platão não eram teses; eram conversas entre amigos que acreditavam que pensar melhor era viver melhor.
Certa vez, Sêneca escreveu: “A filosofia não é um adorno ou uma glória; é um exercício, uma formação”.
E Hannah Arendt, já no século XX, nos alertou que a banalidade do mal reside justamente na ausência de pensamento. Não pensar, para ela, era abrir mão da própria humanidade.
Merleau-Ponty, por sua vez, nos ensinou que não estamos diante do mundo, mas no mundo. A filosofia é a consciência desse “encarnamento”, desse estar lançado em meio às coisas e aos outros.
E Camus, de forma lapidar, resumiu: “O sentido da vida é o mais urgente dos problemas”.
A filosofia é essa urgência que muitos, por preguiça ou medo, relegam para depois.
É justamente aí que retorno ao ponto de partida. Há quem despreze a filosofia, quem a trate como um luxo inútil, uma especulação estéril para quem tem tempo sobrando. Esses mesmos, muitas vezes, são os que mais se queixam da falta de sentido, os que mais se sentem traídos pela vida. Desprezam o remédio que poderia curá-los, talvez porque exija o esforço amargo de pensar.
Quando fecho os olhos, ainda me vejo naquela sala de aula dos anos 1970, caderno de anotações manchado de café, descobrindo que o espanto é o início de tudo.
Passei décadas entre livros, e aprendi que a filosofia não me deu respostas acabadas, mas me deu a coragem para formular perguntas melhores. Ao reler “As Consolações da Filosofia”, percebo que De Botton fez o mesmo que os antigos mestres: estendeu a mão para quem estava caído e disse: “Levante-se, e examine sua vida”.
Os que desprezam a filosofia talvez nunca tenham sentido a vertigem de uma pergunta genuína.
Preferem a segurança das certezas herdadas à aventura do pensamento autônomo.
Mas, como bem sabia Sócrates ao beber a cicuta, a vida não examinada não vale a pena ser vivida.
Se há algo que aprendi, desde aqueles bancos de faculdade até esta madrugada em que escrevo, é que a filosofia não é um consolo entre muitos, ela é o único consolo que não nos ilude, porque nos devolve, com todas as suas dores e belezas, a única coisa que verdadeiramente nos pertence:
a capacidade de perguntar.




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