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CICLOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

CICLOS

            Sento-me à janela e vejo o mesmo movimento de sempre.

            Lá embaixo, na rua de paralelepípedos, um homem tropeça na mesma pedra em que seu pai tropeçou, e o neto, distraído com o brilho de uma tela, está prestes a cair no mesmo lugar.

             A história não se repete como farsa, como queria Marx; repete-se como um vício de linguagem, um soluço do mundo que esqueceu a sintaxe de viver.

            Percebo, então, que minha vida é este mesmo calçamento.

            Quantas vezes voltei ao mesmo amor por não ter compreendido a despedida? Quantas vezes mantive silêncio diante de uma injustiça, já sem lembrar do medo covarde que me calou?  

            O conhecimento, percebo agora, é esse ofício doloroso de gravar a cicatriz na alma para que a carne não tenha de cortar-se outra vez.

            Os antigos já nos alertavam. Sêneca, nas “Cartas a Lucílio”, chamava a isso de “patientia”: a paciência de estudar os próprios erros como um médico estuda a doença para não receitar o mesmo veneno.

            E Cícero, em “Sobre a Velhice”, dizia que o homem livre é aquele que carrega consigo a memória do que fez, não para se punir, mas para não se repetir.

            Mas nós, brasileiros, temos a memória curta e a vaidade longa.

            Somos um país que constrói monumentos para esquecer. Cada vez que a praça amanhece ocupada por tendas e gritos, sinto-me transportado a 2013, a 1992, a 1968.

            É sempre a mesma cena: o povo pede o óbvio, a elite reage com espanto fingido, e o poder se reorganiza com outro nome, mas com a mesma ferramenta de sempre.

            Repetimos a escravidão em novas algemas, a ditadura em novos vernizes, a corrupção como um ciclo agrícola: planta-se a impunidade, colhe-se o descrédito.

            E por que isso acontece ciclicamente?

            Porque nos falta o que Hannah Arendt chamou de “pensamento”, não a inteligência para resolver problemas técnicos, mas a capacidade de parar e confrontar o que estamos fazendo com o que já fizemos. Ela viu isso no século XX, mas poderia estar descrevendo nosso noticiário.

            Sem essa pausa reflexiva, o homem torna-se um autômato de seus próprios vícios, e a sociedade, um rebanho que corre para o mesmo abismo porque o pastor anterior já morreu e ninguém leu o seu testamento.

            Somos como Ícaro, mas sem o aviso do pai. Dédalo lhe disse: “voa no meio”. Nós, porém, abandonamos o mito antes da lição. E então cada geração fabrica suas asas de cera e se espanta ao cair.

            A ignorância histórica não é apenas um esquecimento; é uma preguiça ontológica: preferimos inventar a roda a consertar o carro.

            Mas vejo também, nesse movimento, uma fresta. O espírito positivista, como bem escreveu Comte, aquele que acreditava no progresso pela ordem e pelo conhecimento, não está morto; está apenas soterrado sob o entulho da nossa preguiça intelectual.

            Conhecimento não é erudição vazia; é a ferramenta que desmonta o ciclo. Saber que já vivemos isso nos dá o direito de dizer: “não mais”.

            Quando reconheço que meu ciúme já destruiu um amor, posso escolher a confiança.

            Quando um povo reconhece que a violência já foi usada para calá-lo, pode escolher a persistência pacífica.

            O ciclo se interrompe no momento exato em que a memória se torna mais forte que o instinto. É a vitória do “ethos” sobre o “pathos”.

            O que significa hoje este círculo vicioso?

            Significa que estamos condenados a representar a mesma peça em um palco de poeira, trocando apenas os figurinos. Mas ele pode ser interrompido. Basta um ator, no meio do terceiro ato, jogar o roteiro para o alto e dizer: “Já fizemos essa cena. Vamos improvisar”.

            Esse ato de coragem chama-se educação.

            Não a que decora datas, mas a que ensina a sentir o peso das datas. Não a que forma técnicos, mas a que forma homens capazes de dizer, diante do velho erro que insiste em se vestir de novidade: “Já te conheço. E não passará”.

            Olho de novo para a calçada.

            O homem se levanta, esfrega o joelho e segue. Mas, por um instante, seus olhos se fixam na pedra. Há um lampejo. Talvez ele se lembre. Talvez, da próxima vez, desvie.

            E esse pequeno desvio, esse átomo de memória, é o princípio de tudo.

 
 
 

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