CARNE E OSSO
- Carlos A. Buckmann
- 29 de abr.
- 4 min de leitura

CARNE E OSSO (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Lembro agora, enquanto escrevo, que Taiguara foi um dos compositores mais perseguidos pela censura da ditadura militar instalada no Brasil em 1964.
Exilado, silenciado, suas canções arrancadas das rádios. Por quê? O que tanto ameaçava aqueles homens de terno e pasta?
Escolho esta letra, “Carne e Osso”, para mostrar que os censores, mesmo sem saber filosofia, tiniam um faro aguçado. Eles temiam a racionalidade sem afeto? Não. Eles eram a racionalidade sem afeto. E temiam exatamente o que Taiguara anunciava: o retorno do corpo, do grito, do amor programado à força.
“Eu quero sim, eu quero coisas novas / Mas o que eu procuro mesmo são mais vidas.”
A censura quer o velho, o previsível, o que já está morto.
Taiguara, ao contrário, não quer apenas novidades de superfície, quer mais vidas. Isso é uma crítica ontológica. O regime militar operava com uma lógica de redução: o homem vira número, processo, ficha.
Adorno já denunciava a racionalidade instrumental que trata o humano como meio. Taiguara responde: não troco uma vida por um enredo. Quero multiplicá-las.
“Eu grito sim, mas grito meu lirismo / E o meu grito vai sanar minhas feridas.”
O lirismo é resistência. O grito do poeta não é desespero vazio; é forma, ritmo, sentido.
Nietzsche dizia que a arte é a grande estimulante da vida. O grito lírico opera como catarse: rasga a ferida para que ela se abra e, ao se abrir, sare. Os censores proibiam gritos. Mas não sabiam que o lirismo é incurável.
“E a música, e a mística / Aplicam sangue novo no meu ser calam minha dor.”
Música e mística, duas coisas que a ditadura não podia controlar. O sangue novo é o afeto que reoxigena o corpo social. O regime queria um país anêmico, dócil, de hemoglobina baixa. Taiguara injeta arte como transfusão. E a dor se cala não por repressão, mas por expressão. É a catarse aristotélica levada à política.
“E o lúcido, e o válido e o sólido / Vão matar você que evita o seu amor.”
Aqui, a virada. O lúcido, o válido, o sólido, tudo aquilo que os tecnocratas do regime apregoavam como virtude, torna-se veneno. Por quê? Porque é usado para evitar o amor. Herbert Marcuse, em “Eros e Civilização”, mostrou como a racionalidade repressiva sufoca a pulsão de vida. Taiguara diz, com clareza cirúrgica: essa frieza racional mata.
“Por isso eu vou trazer você comigo / Programar o amor em seus computadores.”
Ironia profética. No Brasil da ditadura, computadores eram raridade. Mas Taiguara já antevia a tecnocracia fria. Programar o amor é um ato subversivo: significa inscrever o afeto no coração da máquina. Não destruir a razão, mas enchê-la de vida. Espinosa nos ensinou que o “conatus”, o esforço para perseverar no ser, é sempre desejo. Programar o amor é fazer do desejo a linguagem do sistema.
“Vou mais além, eu morro mas consigo / Germinar a minha flor em seus rancores.”
A flor, imagem recorrente em Taiguara, é o indestrutível. Morre-se, mas a flor germina no rancor do outro. Isso é potência. Isso é o que os censores mais temiam: que mesmo depois de morto, o artista continuasse a florescer dentro do algoz. Como a semente que quebra o asfalto.
“Nem dúvidas, nem dívidas / Jamais vão destruir a minha flor dentro de você.”
Dúvidas: o ceticismo paralisante. Dívidas: o peso do passado, do medo, da culpa. Nada disso toca a flor.
Bergson diria que a duração criadora não se deixa aprisionar pelo cálculo. A flor é tempo puro, brotamento contínuo. O regime militar vivia de prestações e ameaças. Taiguara responde com a gratuidade radical da vida que floresce.
“Que cérebro, que máquina, conseguem fazer mais / Que um grande amor dentro de você?”
Pergunta retórica, mas devastadora. O cérebro analisa, a máquina executa. Nenhuma das duas ama. O amor é excedente, é mais, é a transbordamento da razão. Os censores, formados nas escolas de eficiência, não sabiam o que fazer com esse “mais”. Por isso o perseguiram.
“E saiba quem agride a minha lira / Quanto mais ferida, mais diz o que sente.”
Taiguara descreve a lógica inversa da repressão. A agressão não silencia a lira; a fere, e a ferida faz a lira falar mais. Isso é pura dialética de resistência.
Foucault percebeu que o poder não apenas reprime, mas produz. Produz resistência. Quanto mais os censores batiam, mais a canção se tornava precisa, cortante, verdadeira.
“Ainda vou ouvir você dizer pra mim / E eu amo sim, sou carne, sou osso, sou gente.”
O verso final da estrofe é a vitória anunciada. O carrasco um dia dirá “eu amo”. E dirá por que reconheceu, em si mesmo, a carne e o osso que a repressão tentou negar.
Merleau-Ponty nos lembra que somos corpo vivido, não substância separada. O regime queria cidadãos abstratos, fichas, números. Taiguara devolve a densidade da matéria viva.
“Sou carne, sou osso, sou gente, sou gente.”
A repetição é um mantra filosófico. O osso é estrutura, a carne é vulnerabilidade. Gente é o nome do encontro entre os dois. Os censores da ditadura não suportavam essa frase porque ela reivindica o direito à imperfeição, ao desejo, à dor que sangra e à boca que beija.
Taiguara perseguido, exilado. Por quê? Porque sua música era um corpo: recusava-se a ser só programa, só ideologia, só relatório.
Ele cantava que a vida não cabe em nenhum decreto.
E que, no fundo do algoz, há uma flor esperando para germinar. Os censores sabiam disso. Por isso o calaram.
Mas a flor, bem se vê, abriu o asfalto.
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