AS QUATRO MULHERES DO FIM DA TARDE
- Carlos A. Buckmann
- 3 de mar.
- 8 min de leitura

AS QUATRO MULHERES DO FIM DA TARDE
Naquela tarde que já escorregava para noite, o salão do Café Entre fluxos parecia uma concha acústica à espera de vozes.
As mesas de madeira escura, gastas pelo sofrimento de muitos que ali se sentaram para um café, sustinham pequenas velas cujas chamas tremiam ao sopro da leve brisa do entardecer que se infiltrava pelas frestas das janelas, como se também elas fossem almas que aprenderam a dançar com o vento sem nunca se apagarem.
As cadeiras de palha trançada, cada uma com sua história de corpos cansados que nelas se sentaram, rangiam em protesto quando alguém se acomodava, mas era um protesto de dor, desses que já não esperam a cura.
A cidade lá fora era apenas um borrão de luzes indistintas, umas fixas, outras piscantes, como se o mundo real também tivesse os seus sinais de esperança e desespero ao mesmo tempo. O aroma do café misturava-se com um cheiro de terra molhada que vinha da rua e com um ligeiro odor de madressilvas, desses que insistem em florir mesmo em lugares onde a primavera já não chega.
Os frequentadores daquela tarde me pareceram todos novos, como plateia de uma peça trágica de Shakespeare. Um catador de papéis, com o carrinho encostado do lado de fora, bebericava um café com a dignidade de quem toma posse de um reino. Uma menina que vendia balas na porta do metrô contava moedas sobre a mesa, como quem faz contas com o destino. Um estudante de violão, com os dedos calejados, dedilhava acordes soltos enquanto esperava alguém que talvez nunca viesse. E, num canto discreto, o velho anarquista, esse sim, habitué, lia um folheto sobre a Comuna de Paris e acenava com a cabeça, como se concordasse com mortos de 150 anos atrás.
Na vitrola, um “Libertango” de Astor Piazzolla, com aquele ”bandoneón” que parece chorar e dançar ao mesmo tempo. A música atravessava o café como uma memória que não se sabe de quem, mas que todos reconhecem.
A porta se abriu e quatro mulheres entraram em silêncio. Não pediram licença, não olharam para os lados. Caminharam como quem conhece o caminho de cor, mesmo que nunca ali tivessem estado. Escolheram a mesa redonda, a maior, a que fica debaixo do candeeiro que não mais ilumina. E quando se sentaram, notei que a luz da vela sobre a mesa pareceu ficar mais intensa, como se a chama também as reconhecesse.
Reconheci uma a uma, embora nunca as tivesse visto em vida. Havia nos seus rostos uma marca comum, uma cicatriz que não se via, mas se adivinhava: a marca de quem perdeu e continuou.
A primeira, de cabelos brancos e lenço também branco na cabeça, era Hebe de Bonafini. Os olhos miúdos, mas firmes, a boca que aprendeu a sorrir mesmo depois de saber que o sorriso não traria os filhos de volta. Líder das Madres de Plaza de Mayo, a que transformou a dor individual em praça pública.
A segunda, elegante mesmo na simplicidade, era Zuzu Angel. O vestido de linho claro, os cabelos louros cuidados, as mãos de artista. A estilista que usou a moda como denúncia, que vestiu os anjos de asas cortadas para que o mundo visse o que os generais queriam esconder.
A terceira, de olhar doce, mas inquebrantável, era Eunice Paiva. A postura ereta de quem aprendeu que vergar-se é morrer um pouco. A advogada que foi dona de casa e se fez doutora para lutar, que transformou a ausência do marido em presença de justiça.
A quarta, mais velha, mais cansada, mas com uma dignidade que dobrava os ombros de quem a olhasse, era Maria Izabel de Mariani. A mãe que procurou o filho durante quarenta anos, que escreveu cartas a presidentes e papas, que nunca aceitou que o desaparecimento fosse resposta.
Aproximei-me para servir. Não perguntei o que queriam; parecia-me que vinho era a única bebida possível para aquelas quatro mulheres. Tinto, sempre tinto, como o sangue que corria nas suas memórias.
Vinho para todas? arrisquei.
“Para todas, respondeu Hebe, num espanhol que era também um abraço. O vinho lembra-nos que ainda estamos vivas.”
Zuzu segurou o copo com ambas as mãos, como quem agradece.
“No Brasil também bebemos vinho nas despedidas. E nas esperas. Eu esperava o Stuart todos os dias, mesmo sabendo que não viria. O vinho aquecia a espera.”
Eunice passou os dedos pela borda do copo antes de beber.
“Eu esperei durante 25 anos. Vinte e cinco anos até que o Estado reconhecesse que o mataram. Bebi muito vinho nesse tempo. Cada gole era um ano, cada ano uma teimosia.”
Maria Izabel não disse nada. Apenas ergueu o copo num brinde silencioso, e as outras três acompanharam.
O bandoneón de Piazzolla, entretanto, parecia chorar por elas.
“Madre Hebe, disse Zuzu, após um longo silêncio, como começou a sua luta? Eu comecei sozinha, com as minhas roupas, os meus anjos, as minhas cartas para os jornais. Mas a senhora começou com outras, em praça pública.”
“Comecei com outras catorze, respondeu Hebe. Éramos quinze mães, na primeira quinta-feira na Plaza de Mayo. Os militares riam de nós. Quinze velhas com lenços na cabeça, a pedir pelos filhos. Não sabiam eles que as velhas são as sementes dos prados. Passamos a ser centenas, milhares. E nunca mais deixámos a praça.”
Eunice inclinou-se para a frente.
“No Brasil, éramos mais sozinhas. Cada uma na sua dor, cada uma nos seus corredores. Eu aprendi que a justiça não se pede, exige-se. Mas demorei a aprender. No início, acreditava que o Estado me ouviria. Inocente, não?”
“Inocente, não”, disse Maria Izabel, falando pela primeira vez. A voz era um fio, mas um fio de aço. “Esperançosa. A esperança é a última coisa que morre, dizem. Mas eu digo: a esperança não morre nunca. Apenas se transforma. Primeiro, esperamos que voltem vivos. Depois, esperamos que nos digam a verdade. Depois, esperamos que a justiça se faça. E esperamos, esperamos, esperamos. Mas não é uma espera passiva. É uma espera que caminha.
Zuzu pegou na mão de Maria Izabel.
“A senhora esperou quanto tempo?”
“Quarenta anos. Quarenta anos à procura do meu filho, na Argentina, no Brasil, no Paraguai. Escrevi a todos os presidentes, a todos os papas, a todos os que podiam fazer alguma coisa. Durante quarenta anos, o Estado disse: "não sabemos". Durante quarenta anos, eu soube que sabiam.”
O silêncio que se seguiu era tão denso que se podia ouvir o crepitar das velas. Piazzolla dera lugar a uma milonga mais lenta, dessas que parecem feitas de distância.
“E a senhora, Eunice. perguntou Hebe, como foi a sua transformação? De dona de casa a advogada, de vítima a lutadora?”
“Foi um parto. Eunice sorriu, um sorriso que era quase uma ruga. Um parto de mim mesma. Quando levaram o Rubens, eu era uma mulher que cuidava da casa e dos filhos. Quando saí da prisão, doze dias depois, era outra. Não escolhi ser essa outra; fui escolhida. E depois percebi que a dor podia ser ferramenta. Aos 47 anos, fiz direito. Passei em primeiro lugar em três faculdades. Estudava enquanto os filhos dormiam, enquanto a casa silenciava, enquanto o mundo lá fora fingia que nada tinha acontecido.”
Zuzu ouvia com os olhos brilhantes.
“Eu também usei a minha ferramenta. A moda. Os americanos adoravam os meus vestidos, os meus babados, as minhas rendas. E eu, por dentro, cosia denúncias. A coleção dos "Anjos" foi isso: anjos torturados, anjos com asas cortadas, anjos que morriam. Desfilei para eles e eles não entenderam. Ou entenderam tarde demais.”
“Tarde demais para si, disse Hebe, baixinho. Porque a senhora também morreu.”
“Morri, sim. Num "acidente" de carro, na estrada da Gávea. Disseram que foi a curva, que foi a chuva, que foi o destino. Mas eu sei, e vocês sabem, que foi a ditadura. O meu filho Stuart, o meu anjo, já tinham levado. Levaram-me a mim a seguir. Mas as minhas roupas ficaram. Os meus anjos continuam a desfilar.”
Maria Izabel apertou a mão de Zuzu.
“Os nossos mortos desfilam todos os dias, Zuzu. Nas praças, nos livros, nos filmes, nas memórias. O meu filho não tem sepultura, mas tem nome. E o nome dele, pronunciado, já é uma ressurreição.”
A conversa alongou-se pela noite adentro. Falaram das suas lutas: Hebe contou como as Madres enfrentaram a ditadura argentina, como rodearam a Plaza de Mayo durante décadas, como recusaram qualquer indenização que não viesse acompanhada de verdade. Zuzu falou das cartas que escrevia para os jornais, dos contatos com o exterior, da forma como a moda se tornou arma. Eunice explicou como a luta pelo marido se alargou à luta pelos índios, como a dor de uma se transformou na defesa de muitos. Maria Izabel descreveu as cartas que escreveu a todos os presidentes, de Videla a Menem, de Figueiredo a Sarney, de todos os ditadores a todos os democratas, sempre a mesma pergunta: "Onde está o meu filho?"
“Sabem, disse Eunice num momento de pausa, eu vivi o suficiente para ver algumas vitórias. Vi o Rubens ser reconhecido como morto pelo Estado que o matou. Vi a lei dos desaparecidos ser aprovada. Vi a Constituição de 88 garantir direitos que lutei para incluir. Mas o que me dói é saber que a luta não acaba. Os desaparecidos de ontem são os indígenas de hoje, são os negros de hoje, são os pobres de hoje.”
“A luta não acaba, Eunice, respondeu Hebe. A luta muda de nome, de rosto, de endereço. Mas não acaba. As Madres continuamos, mesmo eu tendo partido. As novas Madres, as Madres da resistência, as Madres de todas as causas. O que aprendemos é que a maternidade não é só biológica: é política.”
Zuzu ergueu o copo.
“Então brindemos à maternidade política. Às mães que pariram filhos e às que pariram lutas. Às que morreram e às que continuam.”
Brindaram. As velas tremularam, a música subiu, o café inteiro pareceu suspender a respiração.
A noite avançava e os outros clientes iam saindo. O catador de papéis pagou o café com moedas contadas e saiu a empurrar o carrinho da dignidade. A menina das balas guardou as moedas e partiu para o metrô, para a noite, para a vida. O estudante de violão guardou o instrumento e saiu a assobiar uma melodia que ninguém reconheceu. O velho anarquista fechou o folheto da Comuna e despediu-se com um aceno que era também uma bênção.
Só elas ficaram, as quatro mulheres, na mesa redonda, a vela ainda acesa, a chama mais viva do que nunca.
Quando a madrugada começou a despontar, lá fora, por entre as nuvens que a chuva deixara, levantaram-se. Hebe deixou sobre a mesa um lenço branco, desses que as Madres usam na cabeça. Zuzu deixou um pequeno anjo de pano, desses que cosia nas roupas. Eunice deixou uma caneta, dessas com que assinou pareceres e certidões. Maria Izabel deixou uma carta, amarelecida, sem selo, sem destinatário, a carta que escreveu ao filho todos os dias durante quarenta anos.
Despediram-se com um abraço que uniu Brasil e Argentina, arte e direito, rua e tribunal, lágrima e lei. E desapareceram na noite que já não era noite, levando consigo a luz que trouxeram.
No meu livro de guardanapos, onde registro as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Maria Izabel murmurou ao sair:
"A memória é a única pátria que não nos podem tirar. E nessa pátria, os nossos mortos vivem para sempre."
E o Café Entre Fluxos fechou as portas naquela madrugada, guardando no silêncio o eco de quatro vozes que, mesmo do outro lado do tempo, continuam a ensinar-nos que o amor é mais forte que a morte, e que a luta, quando é de mãe, nunca acaba.




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