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AS ARTES E OS VALORES

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

AS ARTES E OS VALORES       

            Li o fragmento de Safo não como quem lê, mas como quem ouve um eco. “Ode a Afrodite”.

            Exatamente aquela que Dionísio de Halicarnasso, com seu crivo de gramático apaixonado, nos legou intacta, uma raridade num mundo onde o tempo é ourives de cacos.

             Ali, naqueles versos que já eram velhos quando Roma ainda ensaiava seus primeiros passos de loba, senti algo que me ultrapassava. A voz da poetisa de Lesbos não saía do papiro; ela vinha de um lugar onde os séculos são meros acidentes. Afrodite descia em seu carro dourado, e eu, ali, num quarto de paredes caiadas, era contemporâneo de Safo.

            Essa é a magia que sempre me pareceu o maior escárnio da existência.

            Lembrei então dos tabletes de argila da antiga Mesopotâmia, aqueles pequenos blocos de barro cozido que guardam, desde cerca de 3000 a.C., a contabilidade de grãos e os delírios de Gilgamesh, percebi que o homem sempre tentou duas coisas: registrar o espírito e acumular o mundo.

            Das pinturas rupestres em Chauvet, onde bisões galopam há trinta e seis mil anos com uma vitalidade que desafia a própria pedra, até os grandes ciclos de afrescos, as cantigas de amigo, as sinfonias e os romances, a arte mostra um ímpeto obstinado de não morrer. Ela é a parte de nós que recusa o esquecimento. E, ironicamente, triunfa.

            Enquanto os poemas de Safo sussurravam ao ouvido de gregos, romanos, bizantinos e a mim, pensei nos grandes conglomerados que, com a arrogância dos efêmeros, julgavam-se eternos.

            Onde estão as frotas da Companhia Holandesa das Índias Orientais, que um dia valiam mais que todos os tesouros do Ocidente? Seus armazéns ruíram, suas ações são pó em arquivos de museu, seu poder, que moveu exércitos e definiu fronteiras, hoje é uma nota de rodapé para especialistas.

            O mesmo destino teve a Casa dos Medici, não obstante seu esplendor. A fortuna deles, que financiava Capelas e palácios, esfarelou-se em heranças disputadas, títulos caducos e uma ou outra praça na Toscana que ainda lhes empresta o nome. Mas a “Capella dei Magi” de Benozzo Gozzoli, paga por eles, essa permanece. E permanece não porque seja feita de pedra, mas porque é feita de encanto.

            Fiquemos na história brasileira.

            Alguém lembra do império Matarazzo, ou da fortuna dos Guinle? Restou alguma coisa da Mesbla? Onde está o império “X” de Eike Batista? Daqui a cinco anos, alguém lembrará do Banco Master?

            Há uma lição amarga e libertadora nesse antagonismo.

            Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, já nos lembrava que a obra de arte é uma "ideia", algo que escapa à corrente infindável do tempo e do princípio da razão.

            A fortuna, ao contrário, é puro fenômeno, pura vontade de vida, sempre insatisfeita e sempre perecível.

            O banqueiro constrói um império de cifras; o artista constrói um império de símbolos. As cifras desaparecem com o sistema que as criou; os símbolos, quando são genuínos, são absorvidos pela própria corrente da existência humana.

            Horácio, sobre suas “Odes”, com sua conhecida vaidade, jactou-se: “Exegi monumentum aere perennius”, (ergui um monumento mais duradouro que o bronze). E tinha razão. O bronze das estátuas dos imperadores foi derretido para fazer canhões ou moedas desvalorizadas; seus versos, porém, ainda são lidos.

            Essa constatação me leva a uma espécie de melancolia crítica.

            Vivo num tempo que cultua a acumulação com a mesma fé com que os antigos cultuavam os deuses domésticos.

            Constroem impérios comerciais que julgam sólidos como a rocha, mas que são, na verdade, castelos de areia erguidos na linha da maré.

            Acumulam fortunas que o próximo terremoto econômico, a próxima revolução tecnológica ou a próxima sucessão familiar dissiparão sem piedade.

            Enquanto isso, o que é realmente inestimável, o quadro que guarda um olhar humano, o poema que condensa uma lágrima, a melodia que é a arquitetura do sentimento, é tratada como ornamentos, quando não como mero ativo financeiro.

            A arte não conhece falência.

            Ela não está sujeita aos humores do mercado, embora o mercado tente possuí-la. Sua fortuna é de outra ordem: é a fortuna de dialogar com o morto e com o que ainda não nasceu.

            É a fortuna de ser, no dizer de Platão, uma reminiscência do belo em si.

            Ouro, ações, territórios, impérios, tudo isso se dissolve no esquecimento, porque eram apenas a sombra projetada na parede da caverna.

            Enquanto folheio meus livros e ouço, ainda distante, o carro de Afrodite que desce do céu para atender à súplica de Safo, sinto um misto de comiseração e assombro.

            Comiseração pelos que trocam a eternidade possível pela solidez fictícia do que apodrece; assombro pela teimosia da beleza, que sobrevive à ruína dos que tentaram comprá-la ou ignorá-la.

            No fim, os grandes conglomerados são uma nota de rodapé na história econômica; os versos de Safo, porém, continuam sendo lidos num quarto do século XXI como se fossem uma carta escrita ontem.

            Eis a verdade que o mercado insiste em recalcar: só há uma fortuna que resiste ao naufrágio do tempo, e essa fortuna chama-se arte.

            O resto é poeira que o vento se encarrega de redistribuir, até que nada reste senão o pó do que um dia julgamos ser eterno.

 
 
 

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