AMANHÃ
- Carlos A. Buckmann
- 9 de mai.
- 3 min de leitura

AMANHÃ (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Escolhi esta canção. Não por acaso, mas porque ela guarda, em cada verso, um tratado filosófico disfarçado de melodia.
Guilherme Arantes a escreveu nos estertores da ditadura militar brasileira, quando o amanhã era uma aposta de risco, quase um ato de coragem. E é justamente isso que me fascina: a filosofia não mora nas certezas, mas no desejo de que o tempo ainda possa nos surpreender.
“Amanhã será um lindo dia / Da mais louca alegria / Que se possa imaginar”
O futurível, como diria o filósofo Ernst Bloch, é uma categoria do ainda-não-ser. O amanhã não é um fato, é uma potência. E o que Arantes nos oferece aqui não é uma promessa meteorológica, mas uma declaração de princípios: a alegria, por mais louca que pareça, merece nosso voto de confiança. Contra o realismo cru dos dias de chumbo, ele aposta na força do possível.
“Amanhã, redobrada a força / Pra cima que não cessa / Há de vingar”
Nietzsche falava da vontade de potência como esse impulso vital que não se contenta com o dado, mas que quer superar-se. O “pra cima que não cessa” é a afirmação da vida contra o peso do que já é. Numa época em que o medo nos ensinava a olhar para baixo, a canção insiste na verticalidade do espírito. Vingar não é vingança: é frutificar, é fazer valer.
“Amanhã, mais nenhum mistério / Acima do ilusório / O astro rei vai brilhar”
Platão nos falou da caverna, das sombras que tomamos por realidade. O “ilusório” é justamente esse mundo de aparências que nos aprisiona. Arantes profetiza um amanhã sem mistérios não porque o mundo se tornará banal, mas porque o claro-razão, o astro rei, iluminará o que antes era oculto pela ideologia, pelo silêncio forçado. É o sol da inteligibilidade.
“Amanhã a luminosidade / Alheia a qualquer vontade / Há de imperar”
Spinoza ecoa: a substância é cega às nossas preces. A luz não pede licença. O imperativo da luminosidade não depende de decretos, de vontades humanas, de regimes. Ela há de imperar porque é da ordem do ser, não do poder.
Quantos governos tentaram apagar o sol? E quantas manhãs teimosamente nasceram?
“Amanhã está toda a esperança / Por menor que pareça / O que existe é pra vicejar”
Walter Benjamin, nas suas teses sobre o conceito de história, nos lembrou que a esperança é um dever para com os mortos e os que virão.
Mesmo pequena, ela é a semente do que há de vir. “O que existe é pra vicejar”, esta é uma declaração contra a podridão, contra a estagnação, contra o cinismo que naturaliza o sofrimento. Vicejar é o movimento próprio da vida.
“Amanhã, apesar de hoje / Ser a estrada que surge / Pra se trilhar”
Heidegger nos ensinou que o ser é tempo. O hoje é sempre o ponto de partida, a estrada que se abre sob nossos pés.
Arantes faz um deslocamento sutil: o amanhã se constrói apesar do hoje. O hoje é a matéria bruta, o amanhã é a forma que queremos dar a ela. Trilhar a estrada não é aceitar o destino, é inventá-lo a cada passo.
“Amanhã, mesmo que uns não queiram / Será de outros que esperam / Ver o dia raiar”
Sartre diria: o inferno são os outros? Talvez. Mas aqui o poeta inverte: o amanhã será daqueles que não desistiram de esperar. A vontade contrária de alguns não pode apagar o desejo de muitos. A dialética é essa: enquanto uns empurram o mundo para o ontem, outros puxam para o amanhã. E a história, lembra-nos a canção, não é unânime, felizmente.
“Amanhã ódios aplacados / Temores abrandados / Será pleno, será pleno”
O estoicismo de Sêneca nos lembra que as paixões turvam o juízo. Aplacar os ódios, abrandar os temores, não é uma utopia ingênua, é um trabalho filosófico sobre si e sobre o mundo.
O pleno não é o perfeito, é o inteiro. Sem fraturas. Sem inimigos. Sem fantasmas. Ah, como o amanhã de 1981 ainda é o nosso amanhã, tantas décadas depois.
Esta canção resiste ao tempo como poucas filosofias conseguem. Não porque dê respostas, mas porque mantém viva a pergunta: e se amanhã, de fato, tudo puder ser diferente?
O amanhã de Arantes não é a fuga do presente, é a sua radicalização. É a convicção de que a realidade não é uma prisão, mas um canteiro. E que cada manhã que nasce, mesmo quando não cantada, já é um começo.
Ou, como diria o poeta: amanhã, apesar de hoje, será, porque precisa ser.
E porque, no fundo, já estamos todos, de algum modo, lá.
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