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A VOLTA DA AROEIRA

  • Carlos A. Buckmann
  • 2 de mai.
  • 3 min de leitura

A VOLTA DA AROEIRA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Quando penso em Geraldo Vandré, penso em letras que eram facas.

            Não adjetivos floreados, não metáforas domesticadas. Eram gritos secos, diretos, com endereço certo, na cara do regime militar que nos sufocava.

            Vandré não pedia licença para doer. Doía de propósito.

            Décadas depois, suas canções ainda sangram, porque o mundo não virou tanto assim. Ainda há donos sentados mandando dar. Ainda há quem faça conta para o dia que vai chegar. E a aroeira, ah, a aroeira, continua a dar suas voltas.

            “Vim de longe, vou mais longe. Quem tem fé vai me esperar.”

            A fé de que fala o poeta não é a fé dos templos, mas a esperança ativa, a que Walter Benjamin chamou de “fagulha de esperança no passado”. Vim de longe: sou herdeiro de todas as lutas. Vou mais longe: não paro aqui. Quem tem fé, quem acredita que outro mundo é possível, não apenas me espera; caminha comigo.

            A conta que escrevemos, juntos, é a contabilidade invertida do sofrimento: cada lágrima, cada grilhão, cada hora extra sem Justiça, tudo será cobrado. No dia que já vem vindo, e que teima em vir, esse mundo vai virar. Virar como a terra no arado. Ou virar como a mesa do feitor.

            “Noite e dia vê de longe. Branco e preto a trabalhar. E o dono senhor de tudo, sentado mandando dar.”

            Aí está a fotografia nua do capital. Foucault nos ensinou que o poder não é só repressão, é produção. Produz corpos dóceis, turnos ininterruptos, a separação entre quem faz e quem ordena.

            O dono senhor de tudo não suja as mãos. Senta-se. E “mandar dar” é verbo que não pede esforço, apenas a certeza de que o chicote existe.

            Branco e preto: a cor da pele ainda determina quem apanha e quem assiste? Infelizmente, sim. A atualidade dessa estrofe dói como uma ferida aberta. Trabalhadores de todas as cores, hoje como ontem, produzem a riqueza que não lhes pertence. E fazem conta. Conta do leite, do aluguel, do medo. Conta para o dia que vai chegar.

            “Marinheiro, marinheiro, quero ver você no mar. Eu também sou marinheiro, eu também sei governar.”

            Eis a virada ontológica. Contra o saber exclusivo do opressor, o povo reivindica sua competência. Não há saber mágico no leme. O marinheiro aprendeu com o balanço das ondas, com as noites de tempestade, com os cadáveres dos que não voltaram.

            Sartre diria que o oprimido, ao tomar consciência de sua liberdade, descobre que o “outro” (o senhor) também é um homem ,tão frágil quanto ele, só que armado.

            Eu também sei governar. Não preciso de patrão para pilotar minha vida. A democracia verdadeira começa aí: na recusa da tutela. Quem trabalha, quem luta, quem sobrevive, esse sabe mais do que todos os manuais do poder.

            “Madeira de dar em doido, vai descer até quebrar. É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.”

            A aroeira é planta brava, de fibra resistente. Seu cipó, quando cortado, rebrota com mais força. Metáfora perfeita para a revolta que não morre, apenas se enrola, espera, e um dia volta.

            Hegel, na dialética do senhor e do escravo, mostrou que o senhor depende do escravo mais do que o inverso. Quando a consciência escrava desperta, o chicote se inverte. Não por vingança banal, mas por justiça elementar. “No lombo de quem mandou dar”, a violência estrutural retorna como rebote. Não é um chamado à barbárie; é uma constatação trágica: o mundo construído na dor um dia se desfaz na dor. E a aroeira, teimosa, desce até quebrar.

            Vandré gritou no escuro do regime, e seu grito ainda ecoa porque as masmorras mudaram de nome, mas não de função.

            Vim de longe, de todas as senzalas, de todas as fábricas, de todos os escritórios sem janela.

            Vou mais longe, porque a fé não é repouso, é movimento. Escrevo, nesta conta miúda de cronista, o mesmo débito que ele inscreveu na canção.

            E quando o mundo finalmente virar, não por milagre, mas por cansaço e coragem, a aroeira terá dado sua última volta.

            E no lombo de quem mandou dar, restará apenas a lição mais antiga: ninguém governa para sempre sobre quem aprendeu a governar o próprio mar.

(*) Assista o clip no YouTube

 
 
 

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