A UTOPIA QUE CABE NO BOLSO
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

A UTOPIA QUE CABE NO BOLSO
(Dedico essa crônica à minha Mestra no Projeto CIRANDAR, Leticia Fagundes).
Penso, às vezes, que votar é um ato de fé.
Não nos deuses, mas em nós mesmos.
E, no entanto, quantos de nós votam com a alma? Com a consciência armada de ideias? Dois livros, me ocorre, deveriam ser leitura obrigatória antes de qualquer eleição: “1984”, de Orwell, e “Utopia para Realistas”, de Rutger Bregman.
Um clássico. O outro, ainda fresco na estante da história.
Mas do primeiro já se falou tanto, ou não, que prefiro me ater ao segundo.
Publicado no Brasil pela Sextante, o livro do jovem historiador holandês é um soco no estômago dos conformistas. E um abraço nos desesperançados.
Zygmunt Bauman, esse velho sábio da liquidez, definiu a obra como “leitura obrigatória para todos aqueles que se preocupam com as injustiças da sociedade atual e desejam contribuir para sua cura”.
Não poderia ter dito melhor. Nem eu, nem ninguém.
Lançado em 2016, o texto respira atualidade. Dados, análises, projeções. Um diagnóstico sem anestesia do mundo em que vivemos.
E um mapa. Um mapa para quem ainda acredita que justiça e igualdade não são palavras vãs.
Há uma passagem que me dói. Joseph Hanlom, citado por Bregman, dispara:
“A pobreza é fundamentalmente uma questão de falta de dinheiro. Não de estupidez. Não tem como esperar que alguém gaste as solas dos sapatos atrás de emprego quando nem sapatos tem.”
E nós, que temos sapatos, fingimos não entender.
O autor evita a palavra “classes”. Eu também evito. Não por ingenuidade, mas por decência. Nascemos nus, iguais. E assim partimos. Tudo o que há no meio é invenção nossa, e das piores.
A divisão em classes é o que sempre emperrou a utopia. Seja a de Thomas Morus, seja a que tentamos construir agora.
Bregman conversou com dois engenheiros do MIT. Eles lhe disseram:
“É o grande paradoxo da nossa era. A produtividade está em nível recorde, a inovação nunca foi tão rápida e, mesmo assim, temos renda média em queda e menos empregos.”
Paradoxo?
Talvez. Ou talvez seja o rosto mais feio do capitalismo tardio.
Mas o jovem holandês não é daqueles que só apontam o dedo. Ele sugere. E o que ele sugere é tido como loucura pelos que vivem de acumular.
Renda básica universal. Uma ideia cujo tempo, ele diz, já chegou.
E prova.
Apresenta o projeto MINCOME, no pequeno Dauphin, Canadá. Treze mil habitantes. Um experimento real onde a utopia deixou de ser sonho e virou política pública.
Entre 1974 e 1979, a pequena Dauphin, no Canadá, transformou-se num laboratório vivo. Na prática, o governo garantia uma renda mínima anual de cerca de 16 mil dólares canadenses para as famílias da cidade, um valor que assegurava o básico sem burocracia. E o que aconteceu? As taxas de hospitalização despencaram. As internações psiquiátricas diminuíram. Mais crianças concluíram o ensino médio.
Os receios de que a renda básica tornaria as pessoas preguiçosas? O desemprego caiu, e as jornadas de trabalho dos homens que recebiam o benefício encolheram apenas 1%. Os que reduziram a carga horária foram, em grande parte, jovens e mulheres, que usaram o tempo extra para estudar ou cuidar dos filhos.
Funcionou. Claro que funcionou. A questão nunca foi saber se funciona. A questão é: por que não fazemos?
Brian Eno, músico, ativista, pensador, definiu Bregman como parte de uma nova geração que sugere alternativas empolgantes para as ortodoxias dos últimos cinquenta anos.
Empolgantes, sim. Mas também incômodas. Principalmente para quem lucra com a miséria alheia.
Ao terminar a leitura, você sentirá esperança. Ou talvez certeza. A certeza de que um mundo melhor é possível.
Desde que cada um faça a sua parte.
Eis, porém, a crítica que me atravessa.
Falei de dois livros essenciais para aprender a votar com assertividade. Mas será que aprender a votar resolve? Ou será que o problema é anterior, mais fundo, mais sujo?
Votamos, sim. E depois? Depois, os eleitos ignoram o MINCOME, ignoram Dauphin, ignoram a renda básica. Preferem acreditar que pobreza é questão de caráter, não de dinheiro.
E nós, com nossos sapatos, continuamos acreditando que o problema está no voto. Quando o problema está no que fazemos entre um voto e outro.
A utopia para realistas exige mais do que urna.
Exige que a gente pare de chamar de utopia o que já se provou real. Exige coragem.
E coragem, essa sim, anda em falta nos tempos líquidos.




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