A SOMBRA DO ARBÍTRIO
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 2 min de leitura

A SOMBRA DO ARBÍTRIO
Acordo.
O café ainda está quente.
Abro o jornal. Lá está ela: mais uma notícia miúda, quase invisível. Alguém foi detido.
Por quê? Não se sabe bem.
O motivo é tão frágil que se desfaz entre os dedos. Uma acusação vestida de eufemismos.
Um nome que a burocracia já comeu.
Penso: e se fosse eu?
A folha de papel treme nas minhas mãos.
Lembro de Josef K. Ele também acordou um dia, tomou café, leu algo?
Não.
Bateram à sua porta.
Kafka não inventou o absurdo. Apenas o reconheceu.
O arbítrio não vem com trombetas. Chega em silêncio, de terno cinza, com um carimbo.
Diz: “Você está envolvido.”
Em quê? “Ainda não sabemos. Mas assine aqui.”
A liberdade, como ensinou Sartre, é um fardo. Mas ser livre sem saber do crime é um pesadelo pior.
Arendt falou da banalidade do mal.
Não é o monstro. É o funcionário. O homem que preenche formulários enquanto a dignidade do outro se desfaz.
Foucault mostrou as grades invisíveis. O poder não precisa de correntes,
basta uma suspeita, uma ficha, um arquivo.
Orwell entendeu: o Estado quer a alma.
Mas o Estado brasileiro, como nota Jessé Souza, quer antes o corpo do pobre.
E eu, cronista de sofá, pergunto:
O que fazer?
Brecht responderia: “O assalto a um banco é nada. Pergunte quem fundou o banco.”
Talvez a saída seja o riso.
O riso amargo, desses que não curam, mas aliviam.
Dizem que a justiça é cega.
Pois bem. Ultimamente, ela também tropeça.
E pior: anda com a bengala de alguém que não sabe aonde vai.
No jornal, a mancha cinzenta onde li sobre o preso anônimo.
Ali, naquele parágrafo esquecido, está o “Processo” de Kafka inteirinho. Só que sem a genialidade literária.
Com a crueza do real.
K. foi absolvido?
Não.
Nós é que paramos de ler.
A sombra do arbítrio não some.
E nós, como Josef K., perguntaremos: “De que sou acusado?”
A resposta virá, gentil e burocrática:
“Isso o senhor saberá a seu tempo. Por ora, aguarde.”




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