A SOBERANIA DO "EU"
- Carlos A. Buckmann
- 14 de mar.
- 5 min de leitura

A Soberania do "Eu"
Fechei o livro.
“O Existencialismo é um Humanismo” descansa sobre a mesa, sua capa modesta contrastando com o turbilhão de ideias que ainda ecoam na sala imensa da minha mente.
A tese de Sartre ressoa com a clareza de um sino: o homem não é definido “a priori”, mas se constrói por seus atos, responsável por si mesmo e, num sentido mais amplo, por toda a humanidade. “Estamos sós, sem desculpas”, pensei, repetindo a máxima para o silêncio da madrugada.
Então meu olhar vagou pela estante e pousou na lombada gasta de “Aprendendo a Viver”, as Cartas a Lucílio, de Sêneca.
Naquele instante, uma ponte invisível se formou entre dois mundos. De um lado, o Café de Flore em Paris e a agitação existencialista do pós-guerra; do outro, a Roma Imperial de Nero, a política e o estoicismo.
Um insight, como um relâmpago, iluminou a conexão: ambos os pensamentos, tão distantes no tempo, ofereciam ao homem um manual de conduta diante do abismo.
Mas seriam eles aliados ou adversários nessa tarefa?
Resolvi percorrer essa ponte.
O ponto de partida de ambos, percebi, é uma constatação de desamparo.
Para Sêneca, nascemos num mundo que não controlamos, sujeitos à “Fortuna” (Sorte), aos acidentes, à tirania dos outros e das nossas próprias paixões. A solução estoica, porém, é um movimento para dentro. Como escreveu Epicteto, outro mestre estoico, “não são as coisas que nos perturbam, mas sim o juízo que fazemos sobre as coisas”.
A sabedoria, para Sêneca, reside na “dicotomia do controle”: cultivar a serenidade para aceitar o que não podemos mudar, coragem para mudar o que podemos, e sabedoria para perceber a diferença. Nossa liberdade está no domínio interior, no juízo, na vontade. O sábio constrói uma fortaleza interior inexpugnável.
Sartre, ao contrário, olha para fora. Seu ponto de partida é a famosa sentença: “a existência precede a essência”. Não há uma natureza humana pré-definida, nem um projeto divino. O homem é lançado no mundo, um “nada” que se faz. Não há desculpas, nem determinismo psicológico, social ou biológico que nos absolva. “Estamos condenados a ser livres”, sentencia.
Aqui, a liberdade não é um refúgio interior, mas uma condição inescapável e projetada para o exterior. Minha liberdade se concretiza na ação, no engajamento com o mundo. Sou aquilo que faço.
Onde eles se encontram, então?
Num campo de batalha comum: a responsabilidade.
Para Sêneca, o aperfeiçoamento interior tem consequências diretas no agir no mundo, na busca pela virtude e pelo bem comum.
Para Sartre, ao escolher agir de uma maneira, o homem está, ao mesmo tempo, escolhendo uma imagem do homem como ele deve ser, legislador para si e para todos.
Ambos recusam a má-fé. Sêneca a condenaria na figura do homem que se deixa levar pelas massas ou pelas próprias paixões, abdicando da razão. Sartre a vê naquele que se esconde atrás de um determinismo (“sou assim porque minha infância foi traumática”) para fugir à angústia da escolha.
No entanto, o abismo que os separa é intransponível em sua base. O estoicismo ancora sua ética numa ordem cósmica, numa natureza racional (o Logos) que o homem deve seguir. É um pensamento da harmonia com o todo.
O existencialismo de Sartre emerge das ruínas dessa ordem. Não há Deus, não há valores objetivos pré-estabelecidos. O homem está só, num universo absurdo, e precisa inventar seus próprios valores.
O desamparo sartriano é metafísico, enquanto o desamparo estoico é prático.
E, ainda assim, que coincidências reais!
Penso no médico e psiquiatra Viktor Frankl, prisioneiro em Auschwitz. Sobrevivendo ao horror dos campos de concentração, ele desenvolveu a Logoterapia, baseada na busca de sentido.
Viktor Frankl, construiu, um laboratório real de ambas as doutrinas, corroborando essa tese: entre o estímulo e a resposta, reside a nossa última liberdade. Seja sob a "angústia" sartriana ou a "ataraxia" estoica, o homem é o capitão que decide como manobrar as velas do barco de sua vida, independentemente da força do vento.
Mas, de Sartre, ele ecoa a ideia de que essa atitude é uma escolha que define nosso ser, um projeto de sentido num contexto de absurdo e sofrimento extremo.
Outro exemplo: Nelson Mandela, em seus 27 anos de prisão em Robben Island.
Há nele um estoicismo profundo: a capacidade de suportar a injustiça sem se deixar consumir pelo ódio, preservando a dignidade interior, o autocontrole que o transformou num símbolo. Mas há também o existencialismo do engajamento: ele não se retirou para uma torre de marfim interior. Pelo contrário, usou a prisão como um palco para continuar sua luta, transformando aquele espaço de opressão em solo para a forja de um novo país. Ele escolheu, a cada momento, quem queria ser, e essa escolha moldou a história.
E eu? Por que abraço essas duas filosofias, apesar de suas tensões?
Porque me parecem complementares na arte de viver.
Sêneca me oferece a âncora, o porto seguro. Nos dias de tormenta, quando o mundo lá fora parece um turbilhão de caos e impotência, ele me ensina a recuar para dentro, a distinguir o que é meu e o que não é, a encontrar uma cela interior que nem o tirano mais cruel pode violar. Ele me dá a serenidade.
Sartre, porém, me empurra para fora desse porto. Ele me impede de fazer da minha fortaleza interior uma prisão. Ele me lembra que a serenidade não pode ser desculpa para a inação, para a indiferença. A cada manhã, ele sopra em meu ouvido: “Você é livre. O que você vai fazer com o seu dia? Que mundo você vai construir com suas pequenas escolhas?”. Ele me dá a responsabilidade e a coragem da ação.
Na vida diária, carrego ambos no bolso. Quando enfrento um esgarçamento, Sêneca me diz: “Isto não depende de ti. Respira. O que importa é como reages, não o esgarçamento em si.”
Mas, ao me deparar com a injustiça, a omissão ou a oportunidade de fazer o bem, é a voz de Sartre que ouço: “Não te escondas. Escolhe. Age. És responsável por isto também.”
Entre a aceitação serena do destino e a construção apaixonada do meu ser, vou tecendo, dia após dia, a trama contraditória e profundamente humana da minha própria existência.
Na vida diária, essa combinação faz a diferença entre o lamento e a construção. Se "não houvesse amanhã", a pergunta de Sêneca seria: "Você viveu virtuosamente hoje?". A de Sartre seria: "Você foi o autor das suas escolhas?".
No fim, as respostas são faces da mesma moeda. Viver sob essa luz é entender que o tempo é o nosso bem mais precioso e que a liberdade, embora pesada, é a única coisa que nos torna verdadeiramente humanos.
Amanhã, se ele vier, será apenas mais uma oportunidade de exercer essa soberania.




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