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A REDENÇÃO DO ERRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

A REDENÇÃO DO ERRO

            Na minha viagem a São Paulo, nessa semana, recebi uma pergunta enquanto tomava um café, entre um gole e outro.

            “Como se opera a alquimia da transformação numa empresa adoecida?”

            O interlocutor conhecia meu passado na gestão, e a “doença” era de RH. Queria uma fórmula mágica para seus problemas de equipe “meia-boca”, como ele afirmou. Eu, porém, já não acredito em fórmulas.

            Acredito em feridas que viram janelas.

            O problema, sim, reside na gestão de pessoas. Mas a solução, se é que posso chamá-la assim, não vem de manuais. Vem da filosofia da existência. Do indivíduo no coletivo. Do erro como gênese.

            Onde não há segurança psicológica, o erro vira crime. E o crime exige expiação, não aprendizado. Nesse ambiente sombrio, a falha se camufla. E o ser, aos poucos, estagna.

            Respondi mais ou menos assim, mesmo sendo uma consulta informal e gratuita:

            Inaugure as “reuniões de autópsia sem culpa”.

            “O que é isso?”

            É quando deixamos de caçar bodes expiatórios e voltamos o olhar para o sistema. Para o processo.

            O funcionário que chamo de “o básico”, aquele à margem da técnica é convidado a confessar sua dificuldade sem temor da guilhotina hierárquica. E o “proativo”, o detentor da expertise, não o socorre de um púlpito superior, mas no mesmo plano da cooperação.

            Quebramos, assim, a informalidade opressora das castas.

            Observe, então, o silêncio organizacional. Um muro invisível erguido pela indiferença.

            Colaboradores passivos apenas cumprem tarefas. Convencidos de que suas ideias são ecos sem valor. Ou de que o risco da verdade supera qualquer benefício. É o medo, esse dreno existencial, consumindo a potência criativa.

            Pavimente canais de voz direta. A discordância construtiva deixa de ser tolerada para ser premiada.

            A implicação é profunda: quando o indivíduo percebe que sua voz tem peso, ele ascende à responsabilidade ontológica pelo destino do grupo.

            Segurança psicológica não é verniz de “ser legal”. É a forma mais pura de sinceridade radical.

            Cuidado com a névoa da ambiguidade, gerada pela falta de atenção genuína do sócio-diretor, isso cria uma zona de ansiedade paralisante.

            Estabeleça um contrato de expectativas claras. Um pacto de transparência. O líder desce do pedestal, dá a face ao grupo, ouve frustrações em sessões que batizei de mediação filosófica.

            A ambiguidade se dissipa. E o funcionário recupera a agência sobre seu próprio labor.

            A neurociência confirma o que Schopenhauer já intuía: o cérebro sob ameaça, medo da demissão, crítica destrutiva, é um órgão incapaz de criação. É a negação da “poíesis” no trabalho.

            Eduque a liderança na escuta ativa e na alfabetização emocional. O outro deixa de ser recurso descartável para ser sujeito. O ambiente se liberta da “tecelagem opressora” de Engels e se transmuta em laboratório de potências humanas.

            Segurança psicológica é a aplicação mais visceral da tese que clama: “O livre desenvolvimento de cada um como condição para o livre desenvolvimento de todos.”

            Sem essa fundação ética, a empresa não passa de um conjunto de “mônadas leibnizianas” operando sob o mesmo teto, mas perdidas em mundos existenciais distintos.

            É preciso cessar a fuga do autoconhecimento disfarçada de produtividade.

            O maior erro não é o fracasso técnico. É a covardia de não assumir a própria humanidade no palco corporativo.

            O erro redimido é o capital intelectual mais valioso. Carrega a marca da tentativa e o DNA da superação.

            Olhe para o seu processo, não para a sua falha. Encontre a coragem de ser quem você realmente é. Transforme cada tropeço em degrau para a consciência coletiva.

            O despertar da sua voz é o princípio da revolução interna.

            “Como se opera a alquimia?”

            Alquimia, meu caro, é palavra falsa. Não há transmutação de chumbo em ouro sem que o chumbo aceite ser chumbo.

            Você me perguntou pela fórmula mágica, mas a verdade queima: a redenção do erro exige exatamente aquilo que você mais teme, parar de fugir.

            O líder doente não precisa de técnica. Precisa de espelho.

            Precisa encarar que o medo que ele planta é o mesmo que o consome. E enquanto ele se esconder atrás de métricas e relatórios, a empresa continuará sendo um necrotério de ideias.

             A alquimia, se existe, não está no método.

            Está na coragem de dizer, em voz alta: “Eu erro, logo existo. E existimos juntos ou não existimos de verdade.”

            Para uma “consulta informal”, foi o melhor que pude aconselhar.

           

 
 
 

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