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A NOITE EM QUE O RISO VEIO DE CAPA E ALAÚDE

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 7 min de leitura

A NOITE EM QUE O RISO VEIO DE CAPA E ALAÚDE

            O Café Entre Fluxos, naquela noite, cheirava a ironia. Não uma ironia qualquer, dessas que se usam em conversas de elevador ou em cartões de aniversário, mas uma ironia antiga, dessas que precisam de séculos para amadurecer e de segundos para ferir. O aroma do café misturava-se com um odor de papel velho e tinta de impressão, como se a própria memória das redações tivesse resolvido infiltrar-se pelas frestas das janelas.

            As mesas de madeira escura, gastas pelos sonhos de vidas que por ali passaram, estavam todas ocupadas, mas havia um silêncio estranho, desses que antecedem a gargalhada ou a bomba.

            As cadeiras de palha trançada rangiam em ritmos diferentes, como percussão desafinada, e as velas sobre as mesas tremiam ao menor movimento, projetando sombras que pareciam fazer piadas umas com as outras.

            A cidade lá fora era apenas um borrão de luzes irónicas, um letreiro de farmácia que piscava sem entusiasmo, um farol de carro que teimava em iluminar o mesmo poste há horas.

            Os frequentadores da noite não me eram conhecidos, mas me pareciam familiares. Um burocrata aposentado, daqueles que passaram quarenta anos a carimbar papéis sem nunca perguntar para quê, bebericava um cálice de vinho com ar de quem finalmente descobriu que a vida não tem formulário. Uma senhora de cabelos brancos, que em jovem fora corista e agora vivia de alugar quartos, folheava uma revista de variedades com olhar cúmplice. Um casal de namorados discutia, em voz baixa, se o amor é uma piada sem graça ou uma piada tão boa que merece ser contada sempre. E, no canto de sempre, o velho anarquista, esse sim, habitué, lia um panfleto sobre a Coluna Prestes e ria sozinho, como se tivesse finalmente entendido a piada.

            Um disco de Pixinguinha, "Um a Zero", com aquele solo de bandolim que parece uma discussão de namorados que no fundo se adoram, dava um clima irônico ao local. A música atravessava o café como uma ironia sonora, lembrando a todos que o Brasil é feito de samba e silêncio, de riso e repressão.

            A porta se abriu e duas figuras entraram em cena. Não entraram como quem chega, mas como quem já estava ali desde sempre e apenas resolveu tornar-se visível.

            O primeiro, mais velho, de olhos miúdos atrás dos óculos de aro fino, trazia no rosto o mapa de todas as ironias que já escrevera. Reconheci-o pelos traços que durante décadas povoaram as páginas de O Cruzeiro, de Veja, do Pasquim. Millôr Fernandes. O homem que transformou um erro de cartório em nome de guerra. Sentou-se com a desenvoltura de quem já não precisa provar nada a ninguém.

            O segundo, mais novo no corpo, mas igualmente eterno, trazia um alaúde a tiracolo e um sorriso de menino malandro. Juca Chaves. O menestrel maldito, como o batizara Vinicius de Moraes. Sentou-se frente a Millôr, colocou o instrumento sobre a mesa e pediu uma cachaça. "Para aquecer a voz", explicou. "E para esfriar a memória, se necessário."

            Aproximei-me para servir. Millôr pediu um café. "Curto, amargo, como a verdade em tempos de mentira", disse, com a precisão de quem pesa cada palavra. Juca já bebericava a cachaça.

            “Então é verdade, começou Millôr, que você teve de se exilar por causa de uma música. O "Presidente Bossa Nova", não é? “

            “Verdade, sim, respondeu Juca, dedilhando distraidamente o alaúde. Fiz uma gracinha sobre o JK, que até gostou, diga-se. Mas vieram os militares e acharam que o humor era coisa séria demais para ser permitida. Portugal primeiro, depois Itália. E em cada lugar, a mesma história: o riso incomoda mais do que a bomba.”

            Millôr sorriu, um sorriso que era quase uma ruga.

            “Conheço bem essa música. Em 1963, publiquei "A Verdadeira História do Paraíso" n' O Cruzeiro. Uns desenhos inocentes sobre Adão e Eva. Os católicos chiaram, os editores se assustaram, e eu fui demitido depois de 25 anos de casa. Disseram que eu traíra a confiança deles. O que eu traí, na verdade, foi a burrice.”

            Juca riu, uma risada que era também uma tosse.

            “Você respondeu à altura, pelo que li. "Como o navio abandonando os ratos", não foi?

            “Foi, sim. Uma das minhas melhores frases, modéstia à parte. Porque os ratos abandonam o navio, mas o navio também pode querer abandonar os ratos. A questão é saber quem são os ratos.”

            O bandolim de Pixinguinha, entretanto, parecia fazer coro. "Um a Zero" continuava, com aquele ar de quem venceu por “w.o.”

            “Fale-me do Pasquim, pediu Juca. Eu lia no exílio, sabe? Chegava atrasado, mas chegava. Era como receber uma carta da pátria, mesmo quando a pátria estava de mau humor.

            O Pasquim, Millôr suspirou, mas era um suspiro bom, foi a nossa trincheira. Eu escrevia aquela página, "E Isso É Isso", com um lema: "Um ponto de vista carioca". E era mesmo. Enquanto eles mandavam cassar, torturar, calar, nós respondíamos com frases. Uma vez, pusemos na capa: "Pazquim", quando dos acordos de paz no Vietname. Os censores não entenderam, mas a gente entendia. A gente sempre entendeu.

            Juca acariciou o alaúde.

            “O meu problema é que eu não tinha uma redação. Era eu, o alaúde e a cara de pau. Subia ao palco e dizia: "Essa música foi proibida". E cantava. O público ria, mas também aprendia. Aprendia que havia coisas proibidas, que havia palavras proibidas, que havia risos proibidos.”

            “O riso não se proíbe, Juca. Apenas se adia. Mais cedo ou mais tarde, ele volta. E volta mais forte.”

            O silêncio que se seguiu era denso de reconhecimento mútuo. Dois homens, duas linguagens, uma só resistência. Aproximei-me para servir mais café e mais cachaça.

            “Millôr, você criou frases que o Brasil inteiro repete até hoje.  ‘Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.’  ‘Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.’  Como é que se faz uma frase assim?”

            “Não se faz, Juca. Ela acontece. Ou melhor, a realidade faz, e a gente só tem o trabalho de anotar. O Brasil é uma fábrica de frases. Nós, os humoristas, somos apenas os entregadores.

            Juca inclinou-se para cochichar, como se fosse dizer algo que não se pudesse ouvir.

            “E a censura? Como é que se entrega uma frase quando há fiscais a vigiar a porta?”

            “Aprende-se a embrulhar. Usa-se papel de metáfora, fita de ironia, lacre de ambiguidade. O censor é burro por definição, Juca. Se não fosse, não seria censor. A gente brincava com isso no Pasquim. Tinha um censor na redação, um funcionário do governo sentado ali, ao lado do Jaguar. O Jaguar dava uísque para ele, e o homem acabava liberando coisas que nem devia.”

            Juca riu, agora uma risada franca.

            “Pois eu nunca tive um censor para embebedar. Tive de aprender a fazer o povo rir nas entrelinhas. O alaúde ajudava. A música distrai, a letra fica. Quando eles perceberam, já era tarde.”

            No finalzinho da noite os outros clientes iam saindo. O burocrata aposentado pagou a conta com um sorriso de quem finalmente entendeu a piada da própria vida. A ex-corista fechou a revista e despediu-se com um beijo no ar. O casal de namorados saiu de mãos dadas, rindo de uma piada que só eles conheciam. O velho anarquista guardou o panfleto e murmurou: "A ‘Coluna’ também ria, sabiam?"

            Só eles ficaram, os dois, na mesa redonda, a vela ainda acesa.

            “Millôr, você escreveu uma vez: "O homem é um animal que adora tanto as novidades que, se o rádio fosse inventado depois da televisão, haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem."  O que diria hoje, com estas máquinas que mostram tudo e não mostram nada?”

            “Diria a mesma coisa, Juca. A técnica muda, a imbecilidade permanece. Hoje as pessoas têm mil canais e não têm uma ideia. Têm milhões de seguidores e não têm uma conversa. O riso, coitado, virou mercadoria. Vende-se em pacotes de quinze segundos.”

            Juca dedilhou o alaúde, um acorde triste.

            “Eu cantava para plateias vivas, Millôr. Gente que ia ao teatro, que pagava ingresso, que queria ouvir. Hoje, o artista fala para uma câmera, e as pessoas respondem com emojis. O riso virou "kkk". Três letras, nenhuma alma.”

            “Mas ainda há quem resista, Juca. Há sempre quem resista. O riso é como a água: encontra sempre uma fresta. Pode demorar, mas passa.”

            Aproximei-me para lhes perguntar se queriam mais alguma coisa. Millôr pediu um último café; Juca, outra cachaça. Aproveitei para perguntar, com a liberdade que o lugar me dá:

            “Perdão, mestres, mas permitam-me uma questão. Os senhores viveram o tempo da censura aberta, do lápis vermelho, do censor na sala ao lado. Hoje, a censura é outra, invisível, algorítmica, feita de silêncio e esquecimento. O humor ainda pode salvar? Ainda pode acordar consciências?”

            Millôr respondeu primeiro:

            “O humor não salva ninguém, meu caro. O humor acorda. Mostra que a realidade é absurda, que o poder é ridículo, que a verdade é sempre meia mentira. Depois de acordado, cada um que se salve como puder. Ou que se afogue, se preferir.”

            Juca tomou a palavra, o alaúde nos dedos:

            “Eu acredito no riso como acredito na respiração. Enquanto se ri, se vive. O dia em que o riso acabar, aí sim, estaremos todos fodidos. Mas enquanto houver um palco, uma plateia, um alaúde e uma piada, há esperança.”

            Millôr ergueu a chávena num brinde:

            “Pois então brindemos ao riso. Ao riso que resiste, que teima, que insiste. Ao riso que é a única arma que não precisa de licença para funcionar.”

            Brindaram. As velas tremeram, a música pareceu subir, o café inteiro suspendeu a respiração.

 

            Quando a madrugada começou a despontar, lá fora, por entre a bruma que a noite deixara, levantaram-se. Millôr deixou sobre a mesa uma caneta-tinteiro, dessas antigas, de tinta permanente, "para escrever o que não se pode dizer", explicou. Juca deixou uma palheta de alaúde, gasta de tanto dedilhar, "para tocar o que não se pode calar", disse.

            Despediram-se com um abraço demorado, dois homens que souberam que o riso é a única coisa séria que nos resta. E desapareceram na noite que já não era noite, levando consigo a música e a ironia que trouxeram.

            E o Café Entre Fluxos fechou as portas naquela madrugada, guardando no silêncio o eco de dois risos que, mesmo do outro lado do tempo, continuam a ensinar-nos que a ironia é a última forma de esperança, e que enquanto houver um alaúde e uma caneta, há sempre uma piada por contar.

            No meu livro de guardanapos, onde guardo as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Juca deixou ao sair:

            “No Brasil a imprensa é muito séria. Se você pagar, eles até publicam a verdade.”

 

           

 
 
 

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