A NOITE EM QUE O DIA VEIO PARA FICAR
- Carlos A. Buckmann
- 8 de mar.
- 7 min de leitura

A NOITE EM QUE O DIA VEIO PARA FICAR
O Café Entre Fluxos, naquela noite de 8 de março, respirava mulher. Não era uma respiração ruidosa, dessas que se anunciam com foguetes e discursos, mas uma respiração antiga, profunda, feita de séculos de silêncio que finalmente aprendiam a fazer-se som.
O cheiro do café misturava-se com um odor de jasmim e terra molhada, como se o outono tivesse resolvido estrear mais cedo, só para homenagear quem chegava.
As mesas de madeira escura, testemunhas de décadas imaginárias, estavam todas ocupadas, mas havia um burburinho especial, desses que antecedem não a bomba ou a gargalhada, mas a revelação. As cadeiras de palha trançada rangiam mais suavemente, como se também elas quisessem poupar as mulheres do incómodo de as ouvir. As velas sobre as mesas tremiam ao menor movimento, projetando sombras que pareciam dançar umas com as outras, sombras de mães, de filhas, de netas, de todas as que vieram antes.
Pelos janelões, a cidade lá fora era um colar de luzes bruxuleantes. Cada luz parecia uma história, cada história uma mulher, cada mulher uma batalha ganha ou perdida, mas sempre batalha.
Os frequentadores daquela noite eram quase todos mulheres. Uma jovem com um livro de Virginia Woolf lia e anotava nas margens, como quem conversa com uma amiga distante. Uma senhora de cabelos completamente brancos, que em jovem fora presa política e agora vivia de dar aulas de história, bebericava um cálice de vinho com a calma de quem já não precisa provar nada a ninguém. Duas estudantes de medicina discutiam, em voz baixa, a dificuldade de ser mulher numa profissão que ainda achava que o lugar delas era ao lado do leito, não à cabeceira. Uma mãe amamentava um bebé numa cadeira de canto, e o gesto, tão simples, parecia conter todas as revoluções.
E, no canto de sempre, o velho anarquista, o único homem que ousara sentar-se naquela noite, lia um panfleto sobre Emma Goldman e acenava com a cabeça, como quem finalmente entende que a revolução também tem nome de mulher.
Sem que ninguém ligasse a vitrola, ouvia-se a voz de Mercedes Sosa entoava com sua voz potente, "Gracias a la Vida", a canção que Violeta Parra escrevera antes de partir. A voz da Negra preenchia o espaço como uma bênção, lembrando a todas que a vida, apesar de tudo, merecia ser agradecida.
Quando a porta se abriu e quatro mulheres entraram em silêncio. Não pediram licença, não olharam para os lados. Caminharam como quem conhece o caminho de cor, mesmo que apenas uma delas ali tivesse estado; em um encontro revolucionário. Escolheram a mesa redonda, a maior, a que fica debaixo do candeeiro que nunca acende. E quando se sentaram, notei que a luz da vela sobre a mesa pareceu ficar mais intensa, e não era mais apenas uma, mas quatro velas, cada uma com seu brilho próprio.
A primeira, de pele negra e postura ereta, trazia no rosto a serenidade de quem disse não e mudou o mundo. Rosa Parks. Não havia alarde na sua presença, apenas a dignidade tranquila de quem aprendeu que a força não precisa de gritar.
A segunda, de olhar profundo e mãos que pareciam guardar segredos de laboratório, tinha a pele marcada pela radiação que a imortalizou e a matou. Marie Curie. Duas vezes Nobel, primeira mulher a ensinar na Sorbonne, a única a vencer a ciência num tempo que queria as mulheres longe dela.
A terceira, pequena e de cabelos brancos, com um sorriso que acolhia sem pedir nada em troca, era Nise da Silveira. A psiquiatra alagoana que trocou os eletrochoques pelos pincéis, que viu nos loucos não doenças, mas almas, que aprendeu com os gatos e com os pacientes o que a academia nunca pôde ensinar.
A quarta, a mais frágil na aparência, mas a mais indomável na essência, trazia as sobrancelhas unidas como asas de pássaro e um vestido colorido que parecia gritar contra a morte. Frida Kahlo. A pintora mexicana que transformou a dor em arte, o corpo em tela, a vida em resistência. Ele lembrava do local e de seu encontro com Che Guevara.
Aproximei-me para servir. Não perguntei o que queriam; parecia-me que vinho era a única bebida possível para aquelas quatro mulheres. Tinto, sempre tinto, como o sangue que corria nas suas memórias e nas suas obras.
Vinho para todas? - arrisquei.
“Para todas”, respondeu Rosa Parks, num inglês macio que parecia um abraço. “Hoje é dia de celebrar, não é? Dia de lembrar que ainda há muito por fazer, mas também de celebrar o que já foi feito.”
Marie Curie segurou o copo com ambas as mãos, como quem segura um tubo de ensaio precioso.
“Na França, quando eu era jovem, as mulheres não podiam sequer sonhar com a universidade. Eu sonhei. E paguei o preço. Mas o vinho, este vinho, lembra-me que há doçura na vida, mesmo quando a vida é difícil.
Nise da Silveira olhou a luz da vela à sua frente através do vinho em seu copo.
“No Brasil, quando comecei a estudar medicina, diziam que mulher não tinha cabeça para a ciência. Depois, quando comecei a tratar os loucos com arte, disseram que eu é que era louca. Bebamos aos que chamam loucas às que veem mais longe.”
Frida Kahlo ergueu o copo com um gesto largo, quase teatral.
“Yo bebo porque quiero, no porque necesito”. Disse, com aquele sotaque mexicano que é quase uma canção. “E brindo à dor, que me ensinou mais do que todos os mestres.”
A voz de Mercedes Sosa, entretanto, continuava: "Gracias a la vida, que me ha dado tanto..." A música parecia feita para elas.
“Rosa, disse Frida, após um longo silêncio, eu quero saber. Como é que uma mulher, sozinha, diz não a um sistema inteiro? Como é que se encontra essa força?”
Rosa Parks sorriu, um sorriso que era quase uma ruga.
“Não estava sozinha, Frida. Tinha dentro de mim todas as mulheres negras que vieram antes, todas as que foram humilhadas, todas as que se calaram. Naquele dia, no ônibus, eu não disse não por mim. Disse por elas. E quando a gente diz não, por muitas, a força multiplica-se.”
Marie Curie inclinou-se para poder falar com a voz de um sussurro.
“Na ciência, é a mesma coisa. Quando entrei num laboratório pela primeira vez, os homens riam. Depois, quando descobri o rádio, pararam de rir, mas começaram a odiar. A Academia Francesa de Ciências recusou-me por ser mulher. Nunca entrei lá. Mas os meus dois prémios Nobel, esses ninguém me pôde tirar.”
Nise tocou no braço de Marie.
“A senhora sofreu muito com a radiação, não sofreu? Morreu por causa dela.”
“Morri, sim. Mas vivi primeiro. E viver, para mim, era descobrir. O rádio matou-me, mas também salvou milhões. Valeu a pena, Nise. Cada minuto valeu a pena.
Frida acariciou o próprio corpo, marcado pela poliomielite, pelo acidente de autocarro, pelas dezenas de cirurgias.
“Eu também padecia de dor. Todos os dias, a cama, as costas, as pernas. Mas descobri que a dor, quando se transforma em pintura, deixa de doer. Vira outra coisa. Vira bandeira.”
Nise olhou para Frida com uma ternura que só os psiquiatras que amam os seus pacientes têm.
“A senhora pintava a sua dor, e ao pintá-la curava-se. Eu vi isso nos meus pacientes, no Engenho de Dentro. Os loucos, como lhes chamavam, pintavam, esculpiam, bordavam. E ao criar, deixavam de ser apenas doentes. Passavam a ser artistas. A arte é o melhor remédio, Frida. A senhora sabia disso antes de mim.”
Rosa Parks bebericou o vinho, lentamente.
“Eu não tive arte, tive a rua. O boicote aos ônibus durou 381 dias. Todos os dias, a pé para o trabalho, a pé para casa. Mas a pé, mas juntos. Caminhando, aprendemos que éramos muitos. Caminhando, aprendemos que podíamos mais.”
Marie Curie ergueu a sobrancelha.
“A senhora andou 381 dias a pé? Eu andei anos a pé, de Paris a Varsóvia, de laboratório em laboratório, sempre a procurar um lugar onde me aceitassem. Mas no meu caso, andava sozinha. A senhora teve a multidão.”
“Tive, sim. Mas a multidão também precisa de quem comece. Alguém tem de ser a primeira a não se levantar. Fui eu. Podia ter sido outra, mas fui eu. E isso bastou.”
O diálogo alongou-se pela noite dentro. Falaram das suas lutas:
Rosa contou como foi presa, julgada, condenada e como, depois de libertada, perdeu o emprego e recebeu ameaças de morte .
Marie falou da dificuldade de ser reconhecida na França, do escândalo quando se descobriu o seu caso com Paul Langevin, da forma como a imprensa a destruiu por amar um homem.
Nise descreveu os anos de prisão durante o Estado Novo, acusada de comunista por ter uma biblioteca em casa, e a luta para implantar a terapia ocupacional num país que preferia eletrochoques.
Frida contou dos quadros pintados deitada, do espelho no teto, da relação com Diego Rivera que era amor e dor ao mesmo tempo .
Falaram das repercussões: Rosa, do reconhecimento tardio, da Medalha Presidencial da Liberdade que Bill Clinton lhe entregou. Marie, dos dois Prémios Nobel, da filha Irene que também ganhou um, da Academia que nunca a aceitou, mas que hoje tem o seu nome escrito em letras de ouro. Nise, do Museu de Imagens do Inconsciente, dos gatos que a acompanhavam no consultório, dos discípulos que espalharam o seu método pelo Brasil. Frida, da Casa Azul que é hoje um santuário, das camisetas com o seu rosto, da dor transformada em ícone.
A noite avançava e as outras mulheres iam saindo. A jovem do livro de Virginia Woolf fechou a obra e saiu com o olhar de quem encontrou respostas. A senhora de cabelos brancos pagou a conta com um sorriso de quem já não tem contas a ajustar com o passado. As estudantes de medicina saíram de mãos dadas, prometendo uma à outra que não desistiriam. A mãe com o bebé ao colo levantou-se e, antes de sair, aproximou-se da mesa das quatro e fez uma vénia silenciosa, como quem agradece pelos caminhos que elas abriram.
Quando a madrugada começou a despontar, lá fora, por entre as nuvens que a noite deixara, levantaram-se. Rosa deixou sobre a mesa um pequeno bilhete: "Não se levante. Permaneça sentada na sua dignidade". Marie deixou um tubo de ensaio vazio, desses que usara nos seus laboratórios, "para que lembrem que a ciência também é feminina". Nise deixou um desenho de um gato, feito por um dos seus pacientes, "a arte que cura". Frida deixou um pequeno autorretrato, desses que pintava para não morrer.
No meu livro de guardanapos, escrevi a frase que Frida murmurou ao meu ouvido ao sair:
"Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?"
Homenagem do CAFÉ ENTRE FLUXOS, às mulheres que transformam o mundo.




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