A MÃO INVISÍVEL, CADA VEZ MAIS PREVISÍVEL
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 3 min de leitura

A MÃO INVISÍVEL, CADA VEZ MAIS PREVISÍVEL
Há dias venho pensando numa velha metáfora. Adam Smith, o escocês de olhos curiosos, chamou-a de “mão invisível”.
Ela governaria os mercados como uma espécie de providência laica. Cada um, buscando seu próprio lucro, acabaria servindo o bem de todos. Quase um milagre econômico.
Mas será mesmo?
O que me inquieta é o seguinte: se a mão é invisível, como podemos confiar nela?
Os antigos já desconfiavam do que não se vê. Os deuses, as sombras na caverna, os ventos que viram tempestade.
Smith, porém, apostou todas as fichas nessa transparência oculta. O mercado se autorregula, dizia. Não precisa de Estado. Deixai vir a oferta e a procura.
A história, essa senhora irônica, tratou de complicar a narrativa.
Começamos trocando carne por cereal. Depois veio a moeda, pequeno metal circular que enfeitiçou a humanidade.
Com ela, o trabalho se especializou. O ferreiro já não precisava plantar; o padeiro não forjava o próprio arado.
A Revolução Industrial trouxe fumaça e pressa. As máquinas cantavam dia e noite. E a mão invisível, antes discreta, começou a empurrar navios, trens e impérios.
O liberalismo econômico virou dogma.
“O lucro individual gera o bem comum”, repetiam os novos sacerdotes de fraque e cartola.
Mas Marx, barbudo e inquieto, cutucou a ferida: e a mais-valia? E o trabalho que não se vê no preço do pão? Ele denunciou a concentração de riqueza. E, com ela, a promessa de equilíbrio automático começou a ranger.
Não sou marxista. Mas confesso que sua desconfiança me pareceu, com o tempo, cada vez menos louca.
O mundo encolheu. Globalização, queda de barreiras, navios do tamanho de cidades.
A internet chegou, essa “ágora eletrônica” onde tudo se compra, se vende, se deseja. De repente, a mão invisível ganhou dedos de fibra ótica. E passou a nos vigiar enquanto compramos meias ou livros.
Porém, o que me tira o sono é a inteligência artificial.
Ela analisa dados como um erudito louco. Prevê comportamentos que nem sabemos que teremos.
A mão invisível, antes imprevisível como o vento, começa a se tornar previsível demais. E previsível, no mundo dos mercados, é o mesmo que manipulável.
As empresas já não precisam mais adivinhar o que queremos. Elas sabem. Sabem antes de nós. Sabem mais do que nós.
E assim, a individualidade do consumo, aquela velha ficção do “consumidor soberano”, se desfaz como névoa. Somos pastores de algoritmos. E eles nos levam onde querem.
A privacidade virou artigo de luxo. O emprego, ameaçado pela automação. A desigualdade, alimentada por quem detém os dados e as máquinas que os interpretam.
Onde está a mão invisível agora?
Ela se tornou visível, controlável, programável. E está nas mãos de poucos.
Smith talvez ficasse perplexo. Ele imaginava uma mão que agia por trás do véu. Nunca previu que o véu seria rasgado, e a mão, vestida em luvas de silício, começaria a nos dar ordens.
A mão invisível, cada dia mais previsível.
E o problema não é a previsão em si. É o poder de quem a controla.
Se antes o mercado era uma floresta escura onde todos tateavam, agora é um jardim geométrico desenhado por engenheiros de dados.
E nesse jardim, não somos jardineiros. Somos plantas.
Cabe a nós, ainda, perguntar: queremos continuar sendo regados por uma mão que já não esconde os fios que a movem?
Ou ainda há tempo de arrancar o mecanismo do invisível e devolvê-lo à única coisa que nunca se deixou prever completamente?
A liberdade humana?




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