A MORTE DO DIÁLOGO
- Carlos A. Buckmann
- 16 de mar.
- 4 min de leitura

A MORTE DO DIÁLOGO
Senti o golpe surdo no peito ao ler o obituário.
Não a comoção ruidosa das multidões, mas o luto contido que se espalha pelas bibliotecas e salas de seminário, um silêncio pesado que agora se abate sobre o território da filosofia.
No último dia 14, Jürgen Habermas, o último gigante da Escola de Frankfurt, decidiu, aos 96 anos, que já havia dialogado o suficiente. E nós, seus leitores e herdeiros involuntários de um século de crises, ficamos aqui, órfãos de sua voz, confrontados com o vazio que ele preenchia com sua incansável "incansabilidade de reflexão".
Para compreender a dimensão dessa perda, é preciso revisitar o cenário intelectual do qual ele emergiu.
A Escola de Frankfurt, fundada na década de 1920, não era uma escola no sentido tradicional, mas um projeto ousado de refundar a teoria crítica. Liderada por Max Horkheimer e Theodor Adorno, sua primeira geração dedicou-se a dissecar as patologias da modernidade, diagnosticando como o projeto iluminista de emancipação havia se pervertido em uma nova forma de barbárie.
O conceito de "indústria cultural" e a crítica à "razão instrumental" denunciavam como a técnica e a cultura, submetidas à lógica do capital, transformavam-se em potentes ferramentas de dominação e apaziguamento das consciências.
Habermas chegou a esse círculo ígneo como assistente de Adorno, mas sua trajetória intelectual representaria uma virada paradigmática.
Se Adorno e Horkheimer, marcados pelo horror do nazismo, haviam desembocado em um certo pessimismo sobre o destino da razão, Habermas, sem jamais negar as sombras, ousou apostar na sua redenção. Sua obra monumental pode ser vista como um diálogo tenso e produtivo com seus mestres, uma tentativa de, nas palavras do professor Francisco Tavares, "compor o que enxerga de melhor" em tradições rivais para reconstruir a casa da razão sobre novos alicerces.
E que alicerces! A filosofia de Habermas, em sua arquitetura, está hoje generosamente publicada no Brasil. Lembro-me, como se fosse ontem, do impacto da leitura de "Mudança Estrutural da Esfera Pública" (1962), onde ele investiga o surgimento e a decadência de um espaço de debate racional e crítico, livre das amarras do Estado e do mercado, fundamental para a democracia.
Mais tarde, em "Conhecimento e Interesse" (1968), ele nos mostrou que todo saber é guiado por interesses: o técnico, o prático e, o mais nobre de todos, o emancipatório.
Mas foi na sua obra-prima, a "Teoria do Agir Comunicativo" (1981), em dois volumes, que encontramos o coração de seu pensamento.
Ali, ele opera a famosa "virada linguística". Habermas propõe que abandonemos o paradigma da consciência solitária e nos voltemos para o paradigma da comunicação. A sociedade, para ele, não se sustenta apenas pelo trabalho ou pelo poder, mas pela interação mediada pela linguagem.
É na ação comunicativa, na busca pelo entendimento mútuo entre sujeitos capazes de falar e agir, que reside o potencial inexplorado de uma razão não-instrumental, uma razão que não domina, mas que busca o consenso por meio da força do melhor argumento.
Essa intuição fundamental se desdobra em obras como "Facticidade e Validade" (1992), uma contribuição seminal para a filosofia do Direito, onde ele explora a tensão entre a norma jurídica como fato social e sua pretensão de legitimidade, sustentando que o Estado Democrático de Direito só se realiza plenamente com uma cidadania ativa e participativa.
Mesmo em seus últimos anos, já nonagenário, ele nos brindou com o projeto épico de "Uma Outra História da Filosofia" (2019), publicada no Brasil em 2023 e 2024, uma revisitação monumental à tradição filosófica, preocupada em demonstrar como as grandes ideias estão enraizadas em contextos práticos e históricos.
Qual a importância dessa filosofia para o nosso tempo conturbado, eu me pergunto?
Toda. Num mundo dilacerado por guerras, pela erosão do debate público nas bolhas das redes sociais e pelo avanço de autoritarismos, o pensamento de Habermas funciona como um antídoto e um farol.
Ele nos lembra que a democracia não é um dado, mas uma construção frágil, que exige cidadãos dispostos a ouvir e a se fazer ouvir num espaço público não corrompido.
Ele nos oferece uma teoria da sociedade que diagnostica a "colonização do mundo da vida" pela lógica do sistema (mercado e burocracia), mas que, ao mesmo tempo, nos aponta a saída: a força regeneradora da comunicação livre de coações
Foi um incansável defensor do cosmopolitismo e da integração europeia, justamente por ver nessas construções a possibilidade de domesticar a violência dos nacionalismos por meio do direito e da deliberação democrática.
E agora?
A ausência de Habermas nos deixa mais pobres. Sua voz que, como poucas, combinava o rigor filosófico mais árido com a coragem da intervenção pública, silenciou.
Fico a pensar no seu último balanço, em 2024, quando confessou sua melancolia ao ver o projeto de uma esfera pública emancipada se distanciar no horizonte, soterrado pela lógica da guerra e dos senhores das plataformas. Era a lucidez do pensador que, até o fim, submeteu a própria obra à crítica.
Ao cerrarmos os livros e recolhermos os artigos, a pergunta que ecoa não é apenas sobre o que perdemos, mas sobre o que faremos com o legado.
A tarefa de pensar a democracia, a comunicação e a emancipação agora é nossa, e o silêncio que ele deixou é a medida exata do tamanho do desafio.
Fecho, devagar, o último volume de “Uma Outra História da Filosofia”. O diálogo termina aqui, mas o silêncio que fica ainda nos chama.
Resta-nos, como ele sempre fez, continuar a conversa.




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