A LIÇÃO DAS ÁGUAS
- Carlos A. Buckmann
- 7 de mai.
- 4 min de leitura

A LIÇÃO DAS ÁGUAS (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Escolhi, nesta tarde chuvosa em que as gotas tamborilam no parapeito, a canção “Planeta Água” de Guilherme Arantes.
Não por acaso. Há nas suas estrofes uma filosofia que precede o compositor e o ultrapassa. Guilherme, paulistano de 1953, pianista de formação erudita, compôs essa ode nos estertores dos anos 1970, quando o Brasil engolia o milagre econômico e a ditadura, e o mundo mal começava a desconfiar que o progresso tinha sede demais.
A canção, consagrada em sua própria voz, ninguém canta Arantes como Arantes, soa hoje não como um hino ingênuo à natureza, mas como um tratado líquido sobre a condição humana.
Comecemos.
“Água que nasce na fonte serena do mundo / E que abre um profundo grotão / Água que faz inocente riacho e deságua / Na corrente do ribeirão”
Tales de Mileto, no século VI a.C., afirmou que a água é a arché, o princípio de todas as coisas. Eis a fonte serena, o simples brotar, o nascimento sem culpa.
Mas o grotão profundo já nos insinua: toda origem carrega um abismo. O riacho inocente que deságua na corrente não é apenas geografia; é a metáfora de nossas biografias. Partimos puros, e o mundo nos recolhe em suas correntezas. A atualidade disso? A cada manhã, em cada berço, uma nova fonte serena jorra para o mesmo destino: a corrente implacável da existência.
“Águas escuras dos rios / Que levam a fertilidade ao sertão / Águas que banham aldeias / E matam a sede da população.”
Águas escuras. Não são turvas, são fecundas.
Espinosa nos ensinou que a escuridão não é ausência, mas potência. Essas águas carregam o húmus dos mundos. E, no entanto, a mesma água que fertiliza o sertão hoje é a que falta em São Paulo, a que envenena em Mariana, a que se cobra em barris plásticos na Cisjordânia.
O paradoxo é antigo: a água mata a sede da população enquanto a população mata a água. A crônica da guerra contemporânea é, no fundo, uma guerra por essas estrofes.
“Águas que caem das pedras / No véu das cascatas, ronco de trovão / E depois dormem tranquilas / No leito dos lagos / No leito dos lagos”
O ronco de trovão é o instante. Nietzsche diria que a cascata é o espírito dionisíaco, força, ruído, embriaguez. Mas o sono tranquilo no leito do lago é apolíneo: forma, contorno, repouso. Somos assim, cronista e leitor. Ora cachoeira, ora lagoa. A filosofia dessa estrofe é um tratado sobre os humores.
E a atualidade? O homem moderno não aguenta o ronco do trovão nem o silêncio do lago. Por isso entope seus ouvidos com telas. A água, mais sábia, alterna os estados sem jamais negar nenhum.
“Água dos igarapés / Onde Iara, mãe d’água, é misteriosa canção.”
Arantes se faz amazônico. Iara não é lenda folclórica menor; é a voz do Outro que nos habita. Lacan diria que a canção misteriosa é a voz do real, inapreensível. A água dos igarapés corre onde o mapa falha. E hoje, quando derrubamos a floresta para plantar soja, o que calamos é essa canção. O indígena sabe: a mãe d’água não canta para agradar, canta para lembrar que há mistérios que não se resolvem com um tuíte.
“Água que o sol evapora / Pro céu vai embora virar nuvens de algodão / Gotas de água da chuva / Alegre arco-íris sobre a plantação / *Gotas de água da chuva / Tão tristes, são lágrimas na inundação.”
Poucos versos concentram tamanha filosofia da transitoriedade.
Heráclito, outra vez, o do rio. A mesma gota que sobe como vapor e desce como arco-íris, alegria da plantação, é a mesma que, em excesso, vira lágrima, inundação, desabrigo. Não há moral aqui, há física. O bem e o mal da água são os mesmos H₂O.
A atualidade berra: uma enchente no Rio Grande do Sul e uma seca no Amazonas são o mesmo ciclo desregulado pelo homem. A água não mudou; mudou a nossa arrogância de achar que controlamos o céu.
“Águas que movem moinhos / São as mesmas águas que encharcam o chão / E sempre voltam humildes /Pro fundo da terra / Pro fundo da terra.”
A ética. A água move moinhos, energia, trabalho, história, moinhos de vento que viraram turbinas hidrelétricas.
Mas ela também encharca o chão, sem glamour. E, crucificante lição: volta humilde pro fundo da terra. Heidegger falava do ser-para-a-morte, mas a água é um ser-para-a-terra. Não há soberba no ciclo. Nós, que nos sabemos pó e a ela nos voltamos, preferimos ignorar. A atualidade da humildade hídrica é um escândalo num mundo que se quer eterno, blindado, à prova de infiltrações. A água ri de nossos asfaltos.
“Terra, planeta água / Terra, planeta água,”
O refrão é um golpe poético. Chamamos o planeta de Terra, mas ele é água. O nome já é um erro. E o erro se repete em cada política pública, em cada poço perfurado sem consciência, em cada garrafa pet vendida como se o líquido dentro fosse eterno. A filosofia aqui é nominalista: se renomeássemos o globo como Planeta Água, talvez nos ajoelhásseis diante da torneira.
Com o disco girando, a voz de Guilherme Arantes, um homem que, aos vinte e poucos anos, pariu uma crônica aquática para o futuro.
Quando abro a torneira e ela cospe um fio hesitante, lembro da fonte serena do mundo. Lembro do grotão profundo que abrimos com nossas catracas e canos.
Mas lembro, sobretudo, que a água volta humilde pro fundo da terra.
Nós é que não voltamos mais.
Por isso a canção permanece, não como consolo, mas como testemunha.
E enquanto houver uma gota capaz de se evaporar, virar nuvem e cair como lágrima ou arco-íris, haverá filosofia.
Eu, cronista de águas, continuarei aqui, molhando minhas palavras na eterna lição que nos escorre pelos dedos.
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