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A FÁBRICA INVISÍVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

A FÁBRICA INVISÍVEL

            Certa manhã, ao atravessar um distrito industrial, detive-me diante das chaminés que já não fumegam. As máquinas, hoje, são silenciosas. E perguntei a mim mesmo: onde se esconde, agora, a exploração?

            Lembrei-me de Friedrich Engels, que, contrariando a vocação familiar, preferiu descer ao inferno das fábricas de Manchester. Não como patrão, mas como testemunha.

            Engels viu o que muitos preferiam ignorar: que o progresso, quando edificado sobre ossos, não passa de uma elegante barbárie. Sua maior descoberta, penso, não foi econômica. Foi existencial. Ele percebeu que o operário, ao vender seu tempo, perde algo mais precioso: Perde a si mesmo.

            A alienação não é um conceito abstrato. É o olhar vazio de quem tece o tecido que não vestirá.

            É o cansaço que não se traduz em descanso, mas em dívida.

            Engels escreveu como quem cutuca uma ferida. E a ferida chamava-se Manchester. Chamava-se Londres. Chamava-se MUNDO.

            “Os que trabalham não lucram; os que lucram não trabalham.”

             Frase dura. Verdade mais dura ainda.

            Seu livro sobre a classe trabalhadora na Inglaterra não é um tratado. É um grito. Um grito que ainda ecoa nos galpões modernos, agora sem chaminés.

            Com Marx, Engels forjou o materialismo histórico. Não uma profecia, mas um método. Um modo de perguntar: quem comeu o pão que o outro plantou?

            O Manifesto Comunista, por sua vez, trouxe uma utopia simples: “O livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”

            Belo.

            Distante.

            Mas belo.

            A história tratou de ironizar as esperanças. Regimes que se disseram marxistas transformaram a luta de classes em luta de escritórios.

            Mas isso não invalida a ferida. Apenas mostra que o remédio também pode ser veneno.

            O que me impressiona, hoje, não é a precisão das previsões de Engels. É sua atualidade involuntária. Ele descreveu a fábrica como um lugar de repetição e cansaço. Eu descreveria as redes sociais do mesmo modo. Rolar, curtir, rolar. Um proletariado de polegares.

            Ali, no feed infinito, também vigora uma lei cruel: poucos lucram com a atenção de muitos. E muitos pagam com o que têm de mais íntimo: sua capacidade de distinguir o verdadeiro do falso.

            O mesmo ocorre com o novo empreendedorismo digital.

            O motorista de aplicativo ou o entregador de iFood se vê como seu próprio patrão, mas é uma patente vazia.

            Ele carrega o carro, a bicicleta, o combustível, o celular. Assume os riscos, os custos, a solidão da estrada. E a plataforma, invisível e soberana, dita as regras sem nunca sujar as mãos.

            Eis a forma mais sofisticada de alienação: convencer o explorado de que ele é, afinal, um empresário.

            O trabalhador deixa de se ver como classe e passa a se ver como marca. Perde a noção da exploração coletiva para abraçar a ilusão da autonomia individual.

            Engels, se voltasse, reconheceria na “liberdade” do delivery a mesma servidão do tear: o homem que corre para entregar o que não produz, e que lucra apenas o suficiente para continuar correndo.

            Somos operários da desinformação. Nossa jornada é exaustiva. Nosso produto, a indignação. Nosso salário, a dúvida.

            Engels não viu o algoritmo, mas teria reconhecido a estrutura. A concentração. A exploração da necessidade humana de conexão.

            E, ao final de sua vida, ele teve a grandeza de financiar o gênio de Marx. Não por caridade, mas por convicção. Sabia que a teoria não se faz sozinha.

            Assim como a mudança não vem de um só.

            O proletariado do século XIX buscava a emancipação do trabalho bruto. Nós, do século XXI, buscamos a emancipação das notícias falsas, das verdades líquidas, das certezas que se desfazem ao toque.

            A luta continua. A ferida, a mesma. Só mudou o nome da máquina.

            E, como dizia Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”.

            Mas mudar para onde?

            Eis a pergunta que Engels me deixou, e que ainda não respondi.

 
 
 

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