A FORÇA DA IDEIA (E DO PARA-CHOQUE)
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr.
- 2 min de leitura

A FORÇA DA IDEIA (E DO PARA-CHOQUE)
Acordo cedo.
Preparo meu chimarrão. Nada como um bom mate para clarear as ideias e espantar o sono.
Lembro de Chateaubriand.
Não do santo, no visconde. François-René, francês, melancólico. Um homem que viu revoluções nascerem e devorarem seus filhos.
Lembro de uma frase sua.
Não sei exatamente onde a li. Talvez num livro perdido em alguma mudança pelo Brasil.
Ela diz: “Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização.”
A frase me persegue.
Penso nos sonhos que guardamos. Na carreira que não ousamos trocar. No poema que ficou na gaveta. No amor que nunca confessamos.
A ideia, ali, quieta. Como uma semente no escuro. Esperando o tempo certo.
Será que o tempo chega mesmo?
Ou somos nós que, por medo, adiamos o instante?
Chateaubriand acreditava na força avassaladora. Na ideia que, madura, rompe tudo.
Como a Apple com o design. Como a Amazônia? Não, a Amazon. Como as energias renováveis, décadas depois de ridicularizadas.
Há uma beleza nisso.
Uma fé quase religiosa no espírito humano.
Mas eu sou cronista, não profeta. Vivo de pequenas contradições.
Enquanto tomava meu chimarrão, lembrei de outro sujeito. Um anônimo, desses que não entram para a história.
Teve uma ideia brilhante: Atravessar a rua de olhos fechados.
Confiava no “momento certo” entre os carros.
A ideia era forte.
O momento, porém, estava ocupado, com um para-choque.
Volto ao começo:
Chateaubriand, perdoe-me. Sua frase é bela. Mas esqueceu de um pequeno detalhe: o mundo.
As ideias, quando chega o momento, são fortes, sim.
Mas encontram outras forças.
O hábito. A inércia. A burrice. O azar. E, principalmente, o arbítrio alheio.
O sujeito dos olhos fechados também tinha uma ideia.
Ela era forte.
Mas o para-choque era mais rápido.
Fica a lição, ainda que amarga: Cultivemos ideias. Mas mantenhamos os olhos abertos.
E, se possível, usemos a faixa de pedestres.




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