top of page

A CORDA BAMBA DA LINGUAGEM

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de mar.
  • 6 min de leitura

A CORDA BAMBA DA LINGUAGEM

            Foi num desses momentos de insônia povoada por espectros que a ideia surgiu.

            Repousavam sobre a mesinha de cabeceira, como velhos adversários que se recusam a baixar as armas, o “Tractatus Logico-Philosophicus” e as “Investigações Filosóficas” as duas faces de um mesmo homem, Ludwig Wittgenstein, que ousou destruir a própria obra com a mesma paixão com que a edificou.

            Ali estavam, lado a lado, o jovem que pretendera ter encontrado "a solução final dos problemas da filosofia" e o maduro que, como quem desmancha o castelo de areia, reduzira a filosofia a um punhado de jogos de linguagem.

            E eis que, nesse torpor entre o sono e a vigília, ocorreu-me convocar para o embate outro fantasma: Bertrand Russell, o mentor que se tornou antagonista, o amigo que Wittgenstein quase levou ao desespero com suas visitas noturnas e suas confissões entremeadas de lógica e pecado.

            Se há algo que a história da filosofia nos ensina é que as grandes mentes não se contentam em habitar o mesmo edifício conceitual, precisam, de quando em quando, atear-lhe fogo e reconstruí-lo com materiais diversos. E poucas relações ilustram tão bem essa verdade quanto a que uniu e separou Russell e Wittgenstein.

            Comecemos pelo princípio, que é também o ponto de maior proximidade. Quando o jovem Wittgenstein bateu à porta de Russell em Cambridge, trazia consigo uma inquietação que só a lógica poderia aquietar. Russell, já então um dos grandes nomes da filosofia analítica, reconheceu de imediato o talento excepcional, ao ponto de, após ler uma única frase do que viria a ser o “Tractatus”, declarar solenemente: "Não, você não deve tornar-se aeronauta”. 

            Estava selado um dos mais fecundos e tormentosos encontros intelectuais do século XX.

            Ambos partilhavam a convicção de que a filosofia deveria passar por uma transformação radical, abandonando as névoas metafísicas em favor da clareza lógica.

            Russell desenvolvera o atomismo lógico, teoria segundo a qual o mundo é composto por fatos atômicos que correspondem a proposições elementares, e o conhecimento se daria por familiaridade direta com esses átomos ou por descrição deles.

            Wittgenstein, no “Tractatus”, levou essa intuição às últimas consequências: a linguagem seria uma figuração da realidade, partilhando com ela a mesma forma lógica. "O mundo é tudo o que é o caso", sentenciou na proposição de abertura, e tudo o que podia ser dito o seria mediante proposições com sentido, isto é, proposições que retratassem estados de coisas possíveis.

            Onde eles se encontram, portanto, é no projeto comum de saneamento da linguagem, na crença de que os problemas filosóficos nascem do uso equivocado das palavras e podem ser dissolvidos pela análise lógica. Mas é precisamente aí que também começam a divergir.

            Russell, racionalista crítico e humanista militante, sempre acreditou que a filosofia deveria iluminar a existência concreta, oferecer orientação para a vida individual e coletiva. Seu pensamento político, seu pacifismo ativo, sua defesa intransigente das liberdades civis, tudo isso decorria de uma visão que via na razão um instrumento de emancipação. Para ele, mesmo que houvesse limites para o que podemos conhecer com certeza, a filosofia ainda teria a tarefa de "ensinar como se pode viver sem a certeza e sem estar, por isso, paralisado pela dúvida”.         

            Ora, o Wittgenstein do “Tractatus” parecia fechar todas as portas para esse tipo de empreendimento. Ao estabelecer que só as proposições da ciência natural têm sentido, ele condenava ao silêncio tudo o que verdadeiramente importa, a ética, a estética, o sentido da vida. "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar", é a famosa proposição final.

            Mas, como Russell percebeu com agudeza, o próprio “Tractatus” é um livro repleto de proposições que, segundo seus critérios, seriam desprovidas de sentido. Wittgenstein "dá um jeito de dizer um bom bocado sobre o que não pode ser dito", observou Russell, sugerindo ironicamente que talvez houvesse escapatória por meio de uma hierarquia de linguagens.

            Esta é a primeira grande coincidência-antagonismo: ambos reconhecem os limites da linguagem, mas enquanto Wittgenstein os aceita como uma fronteira intransponível, Russell os vê como um desafio a ser contornado, talvez com uma dose saudável de ceticismo, mas nunca de resignação.

            Se voltamos agora para o Wittgenstein maduro, o das “Investigações Filosóficas”, encontramos uma reviravolta que paradoxalmente o aproxima, ainda que por vias tortas, do espírito “russelliano”. Ao abandonar a ideia de uma linguagem ideal e única, substituindo-a pela noção de "jogos de linguagem" múltiplos, inseridos em formas de vida concretas, Wittgenstein parece reconhecer aquilo que Russell sempre praticara: a filosofia não pode divorciar-se da experiência vivida.

            A linguagem, para o segundo Wittgenstein, "deve ser compreendida pelo que ela faz, e apenas aí se encontraria o seu verdadeiro significado”. Há inúmeros tipos de sentenças, inúmeros jogos, prometer, ordenar, brincar, ironizar, e todos eles são legítimos desde que compreendidos em seu contexto.       O que era pecado no “Tractatus” (falar de coisas que não são fatos no mundo) torna-se, nas “Investigações”, matéria mesma da vida cotidiana.

            E aqui reside um encontro insuspeito: o Russell humanista, que escrevia livros acessíveis sobre felicidade, educação e casamento, que se dirigia "como um ser humano que sofre pelo estado do mundo" a outros seres humanos, encontra eco no Wittgenstein que redescobre a linguagem como atividade humana entre outras atividades humanas. Ambos, cada qual a seu modo, combatem o que poderíamos chamar de "hipostasiação da linguagem", o erro de tratar palavras como se fossem coisas, conceitos como se fossem entidades autônomas.

            Não podemos deixar de convocar, para esta conversa, alguns outros espíritos. Gottlob Frege, o pioneiro, com sua distinção entre sentido e referência, já havia lançado as bases para a virada linguística que ambos explorariam. O Círculo de Viena, por sua vez, tentou apropriar-se do “Tractatus” para seus próprios fins positivistas, ignorando precisamente a dimensão mística que Wittgenstein considerava essencial, e que Russell, com sua honestidade intelectual característica, nunca deixou de apontar.

            Mas invoquemos também Manuel Sacristán, o filósofo marxista espanhol que dedicou atenção cuidadosa a Russell. Sacristán percebeu algo fundamental: a escassez de "esforço intelectual" que Russell dedicou aos temas sociais não decorria de desinteresse, mas de uma certa concepção do que podia ser tratado com rigor. E, no entanto, é precisamente nesses escritos "menos científicos" que pulsa o coração do humanismo russelliano, a disposição de arriscar-se para além das certezas, de falar ao comum dos mortais sobre o que verdadeiramente importa.

            Chego ao ponto em que estas divagações noturnas encontram o chão da existência cotidiana. Porque a pergunta que me fiz, ao lembrar desses livros e apagar a luz, foi esta: “o que pode a filosofia ensinar a quem enfrenta a crueza dos dias?”

            De Russell, guardo a coragem de pensar com clareza sem jamais perder de vista que o pensamento serve à vida, e não o contrário. Seu racionalismo crítico ensina-nos a duvidar sem paralisia, a agir sem dogmatismo, a defender valores universais sabendo que são, também eles, contingentes e históricos.

            Quando me vejo diante de uma escolha difícil, pergunto: o que diria Russell? Provavelmente, que examine os fatos com o máximo de precisão, mas que não espere encontrar neles a resposta última, porque as decisões humanas envolvem sempre uma aposta para além da evidência.

            Do primeiro Wittgenstein, aprendi o valor do silêncio bem temperado. Há coisas que não podem ser ditas com propriedade, amores que transbordam as palavras, dores que não cabem em conceitos, mistérios que a ciência não alcança. Saber calar diante delas não é fraqueza, mas sabedoria. É reconhecer os limites da linguagem sem, com isso, negar a realidade do que está para além dela.

            Do segundo Wittgenstein, herdei a atenção aos contextos, a percepção de que as palavras só ganham vida quando inseridas em práticas concretas. No dia a dia, isso significa desconfiar das generalizações vazias, dos conceitos que flutuam descolados da experiência. Significa perguntar, diante de qualquer disputa verbal: que jogo estamos jogando? Que forma de vida dá sentido a estas palavras?

            E, no entanto, se me perguntam com quem ficaria numa ilha deserta, ou, o que é mais verossímil, numa tarde chuvosa de domingo, confesso que a companhia de Russell me seduz mais.

            Não porque Wittgenstein seja menor, mas porque o vienense, com sua genialidade trágica e seu ascetismo quase monástico, assusta-me um pouco.

            Russell, ao contrário, parece-me um amigo possível: erra, contradiz-se, escreve livros desiguais, envolve-se em campanhas políticas, vai para a cadeia por suas convicções, ama e desama, enfim, vive. É um filósofo que não teme a imperfeição.

            No fundo, o que estas duas filosofias me ensinaram, cada uma a seu modo, é que a linguagem é uma corda bamba sobre a qual dançamos entre o silêncio e o ruído, entre a precisão lógica e a confusão vital.

             Russell quer alargar a corda, construir pontes, levar a travessia a sério. Wittgenstein quer que sintamos o abismo, que não esqueçamos o preço de cada passo. Um e outro, porém, concordam que a dança é necessária.

            E nós, pobres mortais que tentamos viver com alguma dignidade neste tempo de palavras ocas e ruídos ensurdecedores, talvez precisemos de ambos: da lucidez de Russell para não nos perdermos em devaneios, e da profundidade de Wittgenstein para não nos contentarmos com superficialidades.

            No encontro tenso entre esses dois gigantes, descubro afinal que a filosofia não é um consolo nem uma certeza, é, quando muito, uma maneira menos desastrada de tropeçar na existência.

            E, para quem tropeça, ter com quem compartilhar a queda já é meio caminho andado para levantar-se e caminhar de novo.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page