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A CEGUEIRA INTOLERANTE

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 2 min de leitura

A Cegueira Intolerante

            Releio Voltaire nestas noites em que o noticiário borbulha os mesmos ódios que ele, há quase trezentos anos, acreditava ter ajudado a dissolver. O seu “Tratado sobre a Tolerância” repousa sobre a mesa como um alerta vindo de um século que julgávamos enterrado.

            Mas a história, ensina o velho pessimista, não é uma linha reta, é um círculo. O que me apavora não é o retorno às trevas medievais, mas um obscurantismo mais sutil: a "cegueira branca" de Saramago, aquela em que a luz não nos falta, mas nos falta a capacidade de ver.

            O Iluminismo parece ter sido apenas um interlúdio.

            Os direitos do homem e as enciclopédias hoje empoeiram-se em manuais, ausentes das praças onde proliferam intolerâncias que se retroalimentam como vírus.

            A intolerância religiosa, que Voltaire combateu com ironia, trocou a roda de suplício pelo atentado e pelo feminicídio; a fogueira não tem mais chamas, mas continua queimando. Na política, o adversário deixou de ser um cidadão para se tornar um inimigo a ser extirpado. E nas trincheiras identitárias, grupos se fecham em purezas que renunciam à complexidade humana, transformando a diferença em ameaça.

            Vivemos, sem refutar Bauman, o que poderíamos chamar de "modernidade furiosa". A raiva não é líquida; é viscosa, contamina o diálogo e vende-se como virtude.

            Enquanto a democracia exige a "imaginação empática" de que falava Martha Nussbaum, exercitamos a desumanização sistemática de quem pensa diferente.

            Amin Maalouf, no “Desajuste do Mundo”, alertou: quando as pessoas se definem exclusivamente por uma identidade, étnica, religiosa, nacional, renunciam à complexidade que as torna humanas. O resultado é um mundo de tribos armadas, onde a diferença é sempre uma ameaça.

            Não se trata de crer piamente que a razão resolverá tudo. O próprio Voltaire sabia que a razão tem limites, por isso defendia a tolerância como o direito do outro de estar errado.

            O Iluminismo de que precisamos hoje é o da "razão humilde": aquele que nos convoca não apenas a ousar saber, mas a ousar duvidar do próprio saber. Precisamos de instituições que contenham a enxurrada das paixões e de uma educação que, como queria Montaigne, foque em "cabeças bem-feitas" em vez de apenas cheias de dados, capazes de suportar o desconforto da diferença.

            O caminho da humanidade não é um progresso automático, mas uma sucessão de escolhas artesanais. Resta-nos a escolha diária de não nos acostumarmos com a barbárie, recusando o conforto do bando que tem certeza.

            Voltaire morreu no Século das Luzes, mas o Iluminismo não é um período; é uma disposição do espírito que se acende quando alguém, diante do ódio, se recusa a odiar.

            Talvez o nosso paradoxo seja este: num mundo ofuscado por telas e informações, estamos cegos para o essencial.

            Que possamos fechar os olhos para essa luz que nos cega e abrir aqueles que só a razão humilde pode guiar.

            Caso contrário, a idade das trevas não virá como um eclipse súbito, mas como um crepúsculo lento,  ao qual, acostumados à penumbra, nem notaremos que virou noite.

 

 
 
 

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