top of page

A ARTE DE LER... E ENTENDER

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

A ARTE DE LER... E ENTENDER

                Admirava Millôr.

                Ainda admiro. Não o Millôr anedótico, o debochado das manchetes, mas o filósofo de bolso, o que em meia dúzia de palavras abria um abismo. Ele, meu contemporâneo de espírito e de tempo, escreveu certa vez, em “A Bíblia do Caos”, um aforismo que não esqueço: “Quem não lê, é mais analfabeto do que quem não sabe ler”.     

                Parece um paradoxo. Mas é uma verdade incômoda. O primeiro, o que não sabe decifrar os sinais, habita a penumbra da ignorância involuntária. O segundo, o que sabe juntar as letras, mas se recusa a fazê-lo, escolhe a escuridão. É um analfabeto por vocação. Um desertor da consciência.

                Para mim, porém, a questão não termina aí. Ler é apenas o primeiro gesto. Um gesto mecânico, quase bestial, se não for seguido de outros. Entendo que ler é ler, e reler e reler até entender. É um ato de insistência. Um cerco. A primeira leitura é o reconhecimento do terreno; a segunda, o mapeamento das armadilhas; a terceira, enfim, o encontro com o sentido.

                Eis o fantasma que nos ronda: o analfabeto funcional.

                Aquele que decodifica, mas não compreende. Que escreve parágrafos que são apenas aglomerados de palavras, sem nexo, como se jogasse letras ao vento e registrasse o som da queda. Lê, mas o texto não o atravessa. É um vidro fosco: a luz passa, mas a imagem não se forma.

                Nas redes sociais, esse fantasma se materializa em profusão.

                Vejo, por exemplo, alguém compartilhar um trecho de Schopenhauer sobre o tédio como fundamento da existência e, logo abaixo, escrever: “É isso! Bora tomar uma gelada pra espantar a bad!”. Ou então, um texto de Montaigne sobre a arte do diálogo é comentado com um “Quem concorda dá like”. A frase lida não se encontrou com o pensamento; foi apenas um estímulo para o reflexo.

                Recordo-me de um episódio real, ocorrido em um grupo de leitura. Discutia-se “A Metamorfose”, de Kafka. Um dos participantes, após um silêncio prolongado, declarou: “Muito triste o que aconteceu com o Gregório. Mas se ele fosse meu filho, eu tinha levado no inseticida logo no primeiro dia.” A frase foi celebrada com risos e emojis. A angústia, a alienação, a desumanização contidas na obra evaporaram. Restou o literalismo. O inseto. E o veneno.

                Os filósofos e escritores que admiro já nos alertaram. Sêneca, em suas cartas, dizia: “Não é ter lido muitos livros, mas sim os certos, e compreendê-los bem.” Um aviso contra a erudição vazia.

                Nosso Machado de Assis, pela boca de Brás Cubas, confessou que o melhor de um livro não era tê-lo lido, mas sim tê-lo pensado. O ato de entender é um ato de criação particular. É quando o texto do outro se torna pensamento próprio.

                Um amigo, advogado, contou-me um caso emblemático:

                 Um cliente, ao receber uma sentença favorável de 50 páginas, leu apenas o dispositivo final, onde se lia “procedente”. No dia seguinte, entrou em contato, eufórico: “Doutor, li tudo. Ganhamos!”. Na semana seguinte, ao tentar executar o julgado, descobriu que o juiz havia concedido o direito, mas imposto uma condição temporal que inviabilizava o negócio. Ele leu o veredito, mas não entendeu o juízo. O alívio imediato foi a sua ruína.

                Contornar esse problema, eis a questão que nos convoca. Não será com mais escolas, mais livros, mais telas.

                Será com a coragem de desacelerar. Precisamos instituir o que poderíamos chamar de “ética da releitura”. 

                Ensinar, desde cedo, que a primeira opinião sobre um texto é quase sempre a opinião da preguiça.

                É preciso devolver aos leitores o direito de não entender de imediato.

                E a obrigação de reler.

                A mente lógica e pensante não nasce da quantidade de informação ingerida, mas da qualidade da digestão realizada.

                É um processo que exige ócio, silêncio e, sobretudo, humildade para admitir que, muitas vezes, a frase que julgamos ter dominado, na verdade nos domina sem que saibamos.

                O desenvolvimento de mentes críticas, portanto, não é um projeto tecnológico, mas um projeto espiritual. É uma resistência.

                É recusar a velocidade para habitar a profundidade.

                É entender que ler é um ato de amor, e como todo amor, exige paciência, reler o gesto do outro, e muitas vezes, só depois de muito tempo, enfim, entender.

                Millôr, com seu aforismo cruel, nos deixou o diagnóstico.

                Cabe a nós, agora, pregar a lenta e revolucionária arte da releitura.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page